O roubo de cargas no Brasil se tornou um risco estrutural à economia e à segurança pública. A resposta, também, precisa ser estrutural! Isso passa por tecnologia, por integração entre instituições, por Inteligência aplicada, mas, sobretudo, por uma mudança de mentalidade na forma como esse problema é compreendido e enfrentado. Conheça as reflexões de CRISTIANO CASTRO sobre o tema.
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Honoráveis Ouvintes, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! No episódio de hoje, vamos tratar de um fenômeno que deixou de ser um problema pontual de segurança pública para se consolidar como um verdadeiro componente estrutural do custo Brasil: o roubo de cargas!
Estamos falando de bilhões de reais em prejuízos anuais, impactos diretos nas cadeias logísticas, pressão crescente sobre margens empresariais e, inevitavelmente, repasse desses custos ao consumidor final! Mas, há um elemento que vem se consolidando como padrão nas operações criminosas mais estruturadas: uso de bloqueadores de sinal, os chamados jammers! Esses dispositivos não apenas inviabilizam o rastreamento de cargas, como também comprometem a capacidade de resposta das forças de segurança e das próprias empresas. Em muitos casos, transformam uma operação criminosa em uma ação de alta eficiência e baixo risco. Embora existam ocorrências sem violência direta - algumas com indícios de facilitação interna - nas ações mais sofisticadas, o jammer deixou de ser exceção, tornou-se regra! E aqui surge um ponto crítico: a resposta legal ainda não acompanha a gravidade do problema! A interferência em telecomunicações segue tratada de forma genérica pela lei número nove mil, quatrocentos e setenta e dois, de mil novecentos e noventa e sete, o que, na prática, gera um descompasso entre o risco penal e o impacto real causado por esse tipo de tecnologia nas operações criminosas. Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é apenas sobre o Estado, mas, também, sobre o setor privado: as empresas já compreenderam que estão lidando com um risco estrutural? E, mais importante, já ajustaram suas estratégias para enfrentá-lo? Para nos ajudar a aprofundar essa análise, recebemos hoje Cristiano Castro, policial rodoviário federal, de vasta experiência em investigações complexas e atuação em forças-tarefa, ao qual saúdo com as boas-vindas, agradecendo sua generosidade em compartilhar conosco tua vivência e reflexões, participando deste programa e abrilhantando a este canal. Uma satisfação tê-lo conosco!
Considerando sua experiência e os dados mais recentes, em que momento o roubo de cargas no Brasil deixa de ser um problema episódico e passa a ser compreendido como um risco estrutural dentro da lógica das organizações criminosas?
CONVIDADO:Washington; prazer falar com você e com os ouvintes desse podcast tão sério e tão interessante! Isso deixa de ser um problema pontual quando o roubo de carga passa a ser previsível! Quando você começa a ver que não é uma questão, mais, de oportunidade! É escolha de alvo, escolha de rota, de horário, aí, já muda de nível! O principal é o seguinte: tem demanda! Tem gente esperando essa carga lá na frente! Então, não é só roubar! Existe uma estrutura para escoar isso bem rápido! A partir daí você percebe que já virou como se fosse uma empresa, com funções distintas. Tem quem levanta a informação da carga, quem executa - às vezes, com uma facilitação interna, quem aborda o caminhoneiro para que isso aconteça, quem distribui etc. Então, isso é organização criminosa operando como empresa! Então, mesmo quando os números caem - e esses números variam por N motivos - o problema continua, porque a estrutura não acabou. Pelo contrário, a cada ano ela se consolida mais. Resumindo: deixou de ser ocorrência isolada e virou parte de um sistema!
ANFITRIÃO:Nas ocorrências mais sofisticadas, o uso de bloqueadores de sinal parece ter se tornado um elemento central. Na sua avaliação, qual é o impacto real dos "jammers" na eficiência dessas operações e na redução da capacidade de resposta das empresas e do Estado?
CONVIDADO:Hoje, é peça-chave nas ações mais organizadas! Mas a gente também já vê o "jammer" - e é comum - nas organizações menos profissionais. Ele não é só um acessório. Ele muda completamente o jogo, porque o que sustenta a segurança no transporte é a comunicação,
é o rastreador, a telemetria, o contato com a central, o acionamento rápido dos órgãos policiais quando há um sinistro. E, quando o "jammer" entra, isso some! A carga fica invisível por alguns minutos, ou por um tempo determinado. E é exatamente o tempo que essa quadrilha precisa para que ela consiga o êxito no seu intento criminoso. E, um detalhe: não é um uso aleatório! Eles ligam o "jammer" no momento certo, no ponto certo da rota, que normalmente já é mapeado pela quadrilha. Isso demonstra planejamento e conhecimento técnico. Impacto direto? Reduz drasticamente o tempo de reação! Quando a empresa ou as polícias recebem informação, quer seja via equipe de rastreamento, muitas vezes, a carga já foi desviada ou fracionada. Ou, até a quadrilha tem tempo de trocar a placa do veículo que está sendo sinistrado, entre outras formas que eles utilizam. Na prática, o "jammer" tira da vítima a capacidade de resposta em tempo real e dá para o criminoso essa vantagem. A vantagem é dele! Ele usa isso para poder dar certo!
ANFITRIÃO:Você registra que há casos com indícios de facilitação interna. Como essa variável se integra ao uso de tecnologia, como os "jammers", e de que forma isso eleva o nível de complexidade das investigações?
CONVIDADO:A facilitação interna é o que muitas vezes amarra tudo! Porque tecnologia simples, sozinha, não explica o nível de precisão que a gente vê em algumas ações. Quando você tem alguém de dentro da empresa envolvido - ou até o próprio motorista - a quadrilha passa a ter informações privilegiadas! Rota, tipo de carga, horários, pontos vulneráveis etc. Aí, o jammer deixa de ser tentativa e passa a ser usado no momento exato! Isso aumenta muito a eficiência da ação, porque reduz demais o erro. Não é mais tentativa! É execução direcionada! Eles já sabem que vai dar certo, porque eles têm todos os atores envolvidos junto com eles! Do ponto de vista investigativo, complica demais, porque você deixa de olhar só para fora e precisa investigar a cadeia inteira! Empresa, motorista, operador, logística etc. Inclusive, os B.O.s feitos, quando há facilitação interna, os motoristas te direcionam para uma investigação totalmente oposta ao que realmente aconteceu! Isso aí te demanda muito tempo, agentes, Inteligência para que você consiga verificar que realmente ele está mentindo! E mais! Esses vínculos não são sempre diretos com relação às pessoas partícipes. Às vezes, o contato é pontual, às vezes é intermediário - gente que nem aparece na ocorrência! Então, a facilitação interna eleva o nível e mistura crime de rua com Inteligência e Infiltração. Aí, a investigação fica mais longa, mais sensível e muito mais técnica!
ANFITRIÃO:Hoje, a interferência em telecomunicações é tratada de forma relativamente genérica pela Lei número nove mil, quatrocentos e setenta e dois, de mil novecentos e noventa e sete. Na sua visão, quais são as principais lacunas legais que dificultam o enfrentamento mais eficaz desse tipo de crime? Diante desse cenário, o quanto o setor privado ainda está reagindo de forma tradicional a um problema que já se tornou estrutural? Quais seriam os pilares de uma abordagem mais madura e estratégica para mitigação desse risco?
CONVIDADO:Boa parte do setor privado reage ainda de forma bem tradicional, obsoleta, olhando muito para a tecnologia de uma forma isolada! Então, “preciso de mais rastreador”, “preciso de mais bloqueio”, como se isso resolvesse sozinho! Só que o problema, estrutural! Então, essa resposta já acaba ficando para trás quando a gente analisa isso em relação à organização do crime hoje no intento de roubo à carga! Uma abordagem mais interessante, mais madura, mais eficaz, para mim, ela passa por três pilares. Primeiro: Inteligência - entender o padrão de atuação, mapear as rotas mais críticas, analisar os dados de uma forma mais contínua; a segunda, e não menos importante: gestão de risco de verdade - não só reagir, mas agir para prevenir! Revisão de processo, controle interno delas, validação de pessoas e operações. E o terceiro, que para mim é o central - é o mais importante: é a integração com as forças policiais. Não dá para tratar isso de forma isolada! Isso já está claro! O intercâmbio de informações entre empresas e forças de segurança faz muita, mas é muita, diferença! Porque o que uma ocorrência mostra, muitas vezes, vai ajudar a antecipar a outra. Quando o setor público e privado trocam informações e alinham ações em conjunto, o tempo de resposta melhora, a prevenção fica mais eficiente e a facilitação interna fica muito mais difícil! Sem isso, cada um trabalha no escuro e o crime - que já é estruturado - continua na frente! Um exemplo prático que aconteceu aqui em Minas Gerais foi uma empresa do setor de cigarros procurou a PRF com números realmente absurdos em rodovias federais, aqui em Minas, de roubos e furtos, que não se limitavam a rodovias federais, era geral, mas, nas rodovias federais também, eles nos procuraram, e a gente topou tentar mitigar isso com um apoio, desde que a empresa acreditasse no que a Inteligência da PRF aqui em Minas aconselhasse. E foi feito esse trabalho muito legal, e tivemos uma redução dentro das rodovias federais à época aqui em Minas, entre 70% e 80% dos roubos. Mas, com ações efetivas da iniciativa privada, orientadas pelas forças policiais, no caso da PRF aqui em Minas.
ANFITRIÃO:Para avançarmos no enfrentamento desse fenômeno, quais seriam os caminhos mais eficazes, seja do ponto de vista tecnológico, regulatório ou de integração, entre setor público e privado, para reduzir o impacto de roubo de cargas no Brasil?
CONVIDADO:É lógico que seria utopia a gente achar que uma solução única aqui seria uma receita de bolo que a gente conseguiria resolver. Não tem solução única. Não tem mágica! O caminho passa por integração, tecnologia, ajuste regulatório e criminal ao mesmo tempo. Do ponto de vista tecnológico, o foco precisa sair do equipamento e ir para camadas de proteção - redundância de comunicação - detecção de interferência, análise de comportamento de rota, análise de B.O.s feitos pelo público interno, pelos motoristas - é dificultar a ação, não só reagir depois que aconteceu! Só um detalhe: grande maioria dos motoristas de caminhões são trabalhadores honestos e dedicados que não participam disso, porque quando a gente fala, às vezes, de facilitação interna, parece que todos os motoristas se utilizam desse intento criminal. Não! Há uma grande maioria são honestos, trabalhadores, que movem esse país! Do campo regulatório, a principal ação é ajustar a resposta penal à realidade. Tratar com mais rigor o uso de jammers e a receptação, porque é o que sustenta o crime! Na parte jurídico-criminal, é manter os criminosos presos. Eu vou falar que eu não tenho esse número aqui, mas, na época que a gente trabalhava na ponta, no fardado, era mais de 90% os reincidentes. A gente abordava os mesmos! Tinha alguns que a gente já sabia pelo nome. Não ficam presos! Não ficam presos! Muitos saem na audiência de custódia e é muito complicado para as forças policiais ficarem enxugando gelo! Mas, eu acho que o maior ganho está na integração! Quando a empresa, a seguradora e a força de segurança compartilham informações de uma forma estruturada e legal, você começa a antecipar padrões, não só correr atrás de prejuízo. Isso permite uma ação mais rápida, mais direcionada e até preventiva! Então, acho que o caminho é esse: menos atuação isolada e mais sistemas funcionando juntos, porque o crime já funciona assim há muito tempo!
ANFITRIÃO:Caríssimo, ao caminharmos para o final desta conversa, repriso meus agradecimentos pela sua valiosa contribuição! A grande reflexão que fica é clara: se o risco se tornou estrutural, a resposta também precisa ser estrutural! Isso passa por tecnologia, por integração entre instituições, por inteligência aplicada, mas, sobretudo, por uma mudança de mentalidade na forma como esse problema é compreendido e enfrentado. Deixo este espaço para suas considerações finais. Grande abraço!
CONVIDADO:Eu é que agradeço o espaço! É um tema que precisa ser tratado com essa profundidade que o seu podcast busca. Acho que a principal mensagem é exatamente essa: o crime evolui, só que a resposta está, em muitos casos, tentando brigar com a lógica antiga. Hoje, a gente não está falando só de roubo de carga. A gente está falando de uma estrutura criminal organizada com inteligência, financiamento e mercado. Então, não adianta respostas isoladas! Não adianta só a tecnologia, só a polícia, só a iniciativa privada! O enfrentamento precisa ser de forma integrada, de forma contínua, baseado em informações de qualidade! Talvez, o ponto mais importante seja a mudança de mentalidade! Parar de tratar como ocorrência e passar a tratar como sistema, como um tentáculo do crime organizado! Porque, quando você entende o problema como sistema, você começa a atacar as causas e não só os efeitos! No fim, é isso que faz diferença de verdade! Um grande abraço! Mais uma vez, obrigado pela oportunidade!
ANFITRIÃO:Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse o nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!