Artwork for podcast Faxina
T3-5. CUPUAÇU EM SOMERVILLE
Episode 522nd November 2022 • Faxina • Faxina Media
00:00:00 01:11:21

Share Episode

Shownotes

Esse é o primeiro de uma série de quatro episódios que contará histórias de Brasileiros na cidade de Somerville.

Em Julho de 2020 já faziam 4 meses de lockdown em Boston, e 4 meses que faxineiras brasileiras não recebiam salário e nem ajuda do governo americano. As pessoas não tinham dinheiro para comprar comida. O que fazer para amenizar a fome de uma comunidade inteira? Flavia de Sousa, uma imigrante de Conceição do Araguaia, criou junto com pessoas de sua comunidade um projeto que impactou positivamente a vida de muitas familias. Mas Flavia além de lutar contra a fome, luta também para não deixar que um crime que aconteceu com ela volte a ocorrer na comunidade brasileira. Ouve "Cupuaçu em Somerville" e fica sabendo desse projeto e também de uma história de vida pra lá de inspiradora.

Créditos:

Edição e Roteiro: Heloiza Barbosa.

Assistência de roteiro: Valquiria Gouvea, Vinicius Luis e Jessica Almeida.

Design de som: Paulo Pinheiro.

Músicas originais: Paulo Pinheiro e Blue Dot Sessions.

Música tema do Faxina: Anais Azul.

Ilustrações e animações: Natália Gregorini e Vinicius Cruz.

Mídia social: Nick Magalhães.

A poesia no meio do episódio é de Tracy Figg (@tracyfigg) e foi declamada por Jazz Kaipora  (@kaipora_)

Essa série de episódios sobre brasileiros na cidade de Somerville foi patrocinada pelo Somerville Arts Council.

APOIA o Faxina Podcast na apoia.se! somente R$10 por mês!

Para conhecer as geladeiras comunitárias (community fridge) no instagram visite @somervillecommunityfridge

Transcripts

CUPUAÇU EM SOMERVILLE

OI AQUI É HELOIZA BARBOSA, E BEM VINDO AO ESPAÇO DE SONS E HISTÓRIAS DO FAXINA PODCAST.

O EPISÓDIO DE HOJE É O PRIMEIRO DE UMA SÉRIE DE 4 EPISÓDIOS QUE TRARÁ HISTÓRIAS DE IMIGRANTES BRASILEIROS QUE MORAM NA CIDADE DE SOMERVILLE NO ESTADO DE MASSACHUSETTS.

BOSTON, ISSO LÁ POR VOLTA DE:

MAS COMO ACONTECE COM MUITAS CIDADES DA ZONA URBANA, SOMERVILLE ESTÁ SENDO GENTRIFICADA. OS ESPECULADORES IMOBILIÁRIOS E CONSTRUTORAS ESTÃO FAZENDO DA CIDADE UMA ÁREA PARA PESSOAS DE RENDA ELEVADA E, ASSIM, EXPULSANDO OS IMIGRANTES E MORADORES DE BAIXA RENDA DA CIDADE. POR ISSO, ANTES DE NÃO TER MAIS IMIGRANTES MORANDO NA CIDADE, É IMPORTANTE PARA A MEMÓRIA DA CIDADE DOCUMENTAR HISTÓRIAS DE BRASILEIROS QUE MORAM E DIARIAMENTE FAZEM DE SOMERVILLE UMA CIDADE MAIS SOLIDÁRIA, MAIS DIVERSA, E DE PODEROSA ECONOMIA.

EU QUERO COMEÇAR ESSA SÉRIE DE HISTÓRIAS DE MORADORES BRASILEIROS DA CIDADE DE SOMERVILLE POR UM FIO QUE CONECTA SOMERVILLE À UMA PEQUENA CIDADE NO INTERIOR DO PARÁ - PRA QUEM NÃO SABE O PARÁ É UM ESTADO NO NORTE DO BRASIL. ENTÃO RESPIRA, VEM COMIGO OUVIR O EPISÓDIO "CUPUAÇU EM SOMERVILLE”

[TRANSIÇÃO]

EU NÃO SEI VOCÊS, MAS ÀS VEZES QUANDO EU ANDO NA PRAIA, EU GOSTO DE OLHAR PARA OS PASSOS QUE DEIXEI MARCADOS NA AREIA. E DAÍ EU PENSO QUE A VIDA É ASSIM: CADA PASSO É UM PONTO DE COSTURA. E O FIO QUE FAZ ESSA COSTURA É FEITO DOS MUITOS FIOS QUE SE CRUZARAM COM OS FIOS DA MINHA VIDA. POR EXEMPLO, QUANDO EU NASCI, O MEU FIO SE CRUZOU COM OS FIOS DE MINHA MÃE E PAI, IRMÃOS E IRMÃS, DE MEUS TIOS E TIAS, PRIMOS, AVÓS, DE NOSSOS VIZINHOS E AMIGOS, DO DONO DA PADARIA E DA VERDUREIRA. A GENTE NASCE DENTRO DE MUITOS FIOS DE VIDAS QUE JUNTOS FORMAM UM TECIDO DE RELACIONAMENTOS QUE NOS PROTEGE E SUSTENTA. EU PENSO QUE NÓS SOMOS FEITOS POR MUITOS FIOS CONECTADOS E, ALGUNS DESSES FIOS, EMBOLADOS.

MAS PARA IMIGRANTES QUE DEIXARAM SUAS CIDADES PARA VIVER EM OUTRA CIDADE OU EM OUTRO PAÍS, ESSE TECIDO DE RELACIONAMENTOS SE ROMPE. DESAPARECE DO DIA-A-DIA DA VIDA. O QUE FAZER, ENTÃO, SENÃO TRANÇAR UM NOVO TECIDO COM NOVOS FIOS ENCONTRADOS NA NOVA CIDADE E NO NOVO PAÍS?

FOI ISSO QUE FLAVIA RAVENA DE SOUSA FEZ NA CIDADE DE SOMERVILLE. UMA CIDADE PERTINHO DE BOSTON, DE UM POUCO MAIS DE 81.000 HABITANTES, E QUE ABRIGA IMIGRANTES DE VÁRIAS NACIONALIDADES, INCLUINDO BRASILEIROS, E TAMBÉM UMA CRESCENTE CLASSE MÉDIA ALTA BRANCA.

EU CHEGUEI ATÉ FLAVIA PORQUE UMA AMIGA QUE MOROU EM SOMERVILLE E QUE EU SIGO NO INSTAGRAM REPOSTOU UMA POSTAGEM DELA. AÍ EU SEGUI O FIO. E BISBILHOTANDO AS POSTAGENS DE FLAVIA, EU PAREI EM UM POST DO DIA DAS MÃES, NO QUAL ELA POSTOU UMA FOTO ANTIGA, CHEIA DE MANCHAS, DE UMA MULHER DE PELE MARROM, OLHOS PUXADOS, CABELOS NEGROS, SEGURANDO UM BEBÊ. E EM CIMA DA FOTO TINHA A INFORMAÇÃO DO LUGAR ONDE A FOTO FOI FEITA: CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA, PARÁ. QUANDO EU LI ISSO MEUS OLHOS SE ARREGALARAM E EU PARALISEI.

CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA É UMA CIDADE DE QUASE 48 MIL PESSOAS, NO SUL DO ESTADO DO PARÁ. DA CAPITAL BELÉM ATÉ CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA SÃO QUASE 20 HORAS DE ESTRADA.

E QUEM OUVE O FAXINA PODCAST SABE QUE EU SOU DE BELÉM DO PARÁ. ENTÃO QUANDO EU VI ISSO NO PERFIL DE FLAVIA, EU IMEDIATAMENTE QUIS CONHECER A MÃE DELA, IMAGINANDO QUE TALVEZ SOMENTE A MÃE TENHA NASCIDO NO PARÁ, MAS PRA MINHA SURPRESA..

FLAVIA : Eu nasci em Conceição do Araguaia, Pará.

ESSA É A VOZ DA FLAVIA. DEPOIS DE TROCAR MENSAGENS, FLAVIA E EU MARCAMOS DE CONVERSAR. EU NÃO SEI PORQUE, MAS EU QUERIA MUITO CONHECER ESSA JOVEM DE CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA. EU ACHAVA QUE NELA HAVIA UMA HISTÓRIA QUE PRECISAVA DE SER CONTADA. ENTÃO SEGUI O FIO DA MINHA INTUIÇÃO. EU VOU COMEÇAR ESSA HISTÓRIA PELO MOMENTO EM QUE FLAVIA TEVE UMA IDEIA QUE IMPACTOU A VIDA DE CENTENAS DE PESSOAS.

[TRANSIÇÃO]

SOMERVILLE JULHO DE:

JÁ FAZIA 4 MESES QUE A PANDEMIA DO COVID-19 TINHA FORÇADO UM LOCKDOWN AQUI EM BOSTON E EM OUTRAS CIDADES DA REDONDEZA; ESCOLAS E ESCRITÓRIOS FECHARAM E TUDO PASSOU A SER FEITO DE CASA. E AS CASAS SE FECHARAM PARA QUALQUER PESSOA QUE NÃO FOSSE DA FAMÍLIA.

FLAVIA: Eu estava vendo que a minha mãe e todos os imigrantes, as pessoas que eu considero família, que é a comunidade das pessoas do Pará aqui. Então essas pessoas eu tava vendo todo mundo não conseguir trabalhar, porque o trabalho é limpar a casa. Claro que ninguém tava querendo ninguém entrando na casa deles.

A MÃE DE FLAVIA É FAXINEIRA E O NOME DELA É KEILA - TU VAIS OUVIR KEILA MAIS TARDE NO EPISÓDIO. AGORA EU QUERO TE CONTAR QUE DURANTE O PICO DA PANDEMIA AS FAXINEIRAS, EM SUA GRANDE MAIORIA, IMIGRANTES SEM DOCUMENTOS PARA TRABALHAR AQUI NOS ESTADOS UNIDOS, ALÉM DE NÃO RECEBEREM SALÁRIO, TAMBÉM NÃO RECEBERAM AJUDA DO GOVERNO. NESSE CENÁRIO, AS PESSOAS ESTAVAM TENDO QUE ESCOLHER ENTRE PAGAR ALUGUEL OU COMER NO PAÍS QUE É UM DOS MAIS RICOS DO MUNDO.

FLAVIA: O começo da pandemia foi o começo do meu ativismo, que teve resultado de verdade.

E O COMEÇO FOI ASSIM: FLAVIA EM PROFUNDA AGONIA PRA ENCONTRAR ALGUM JEITO DE AJUDAR A MÃE E A SUA COMUNIDADE, PENSOU ALTO

FLAVIA: Eu tava pensando... Colocar uma geladeira em Somerville. Eu falei isso do nada.

IMAGINA, FLAVIA QUERIA COLOCAR UMA GELADEIRA CHEIA DE COMIDA DE GRAÇA PARA SER USADA POR TODOS QUE NÃO TINHAM DINHEIRO PRA COMPRAR ALIMENTOS NA CIDADE DE SOMERVILLE. E ELA PRIMEIRO FALOU ISSO PRO MARIDO

FLAVIA: Ele like Ok, esse é um projeto muito grande. Como você acha que nós vamo fazer? Eu falei: Não sei, eu não sei. Eu não sei. Tava pensando…

DEPOIS ELA FALOU PRA MAIS PESSOAS.

FLAVIA: Decidi colocar no Twitter e um montão de pessoas, falou: Eu ia querer ajudar. Eu queria ajudar eu ia querer ajudar.

A IDEIA DA GELADEIRA COMUNITÁRIA PARECIA SIMPLES: TER UMA GELADEIRA CHEIA DE COMIDA EM UM LUGAR PÚBLICO QUE QUEM PRECISAR COMER VAI LÁ E PEGA, NÃO PRECISA PAGAR NADA. SIMPLES ASSIM. MAS NA REAL É MUITO DIFÍCIL DE FAZER ACONTECER ESSA IDEIA POR VÁRIOS MOTIVOS. O MOTIVO PRINCIPAL É QUE AQUI NOS ESTADOS UNIDOS NÃO É PERMITIDO COLOCAR UM ELETRODOMÉSTICO COMO UMA GELADEIRA NA CALÇADA OU EM OUTRAS VIAS PÚBLICAS. ENTÃO, É NECESSÁRIO ENCONTRAR ALGUÉM QUE EMPRESTE UM ESPAÇO NA GARAGEM OU NO JARDIM PRIVADO PARA COLOCAR UMA GELADEIRA QUE VAI SER USADA DIA E NOITE POR UMA CIDADE INTEIRA. PENSA, TU COLOCARIAS UMA GELADEIRA COMUNITÁRIA NA FRENTE DA TUA CASA? PODE PENSAR… EU ESPERO… AINDA BEM QUE TEVE UMA PESSOA QUE GOSTOU DA IDEIA DE FLAVIA

Mas o que fez eu fazer mesmo, era um homem, respondeu: Eu quero ajudar e você podia colocar a geladeira na minha, na minha property. Então, quando essa pessoa respondeu e falou isso, eu tava like Ok, nós tem que começar.

O HOMEM QUE RESPONDEU AO POST TINHA UMA ACADEMIA DE GINÁSTICA PRÓXIMO A PRAÇA DA UNIÃO, OU UNION SQUARE, NA REGIÃO CENTRAL DA CIDADE DE SOMERVILLE. E ELE OFERECEU UM ESPAÇO PEQUENO DO ESTACIONAMENTO DA ACADEMIA PARA COLOCAR A GELADEIRA COMUNITÁRIA.

NESSE MOMENTO FLAVIA SABIA QUE ELA JÁ TINHA GARANTIDO O MAIS DIFÍCIL. AGORA ELA PRECISAVA DE GRANA PRA COMPRAR A GELADEIRA E OS MATERIAIS E GENTE PARA AJUDAR NO TRABALHO

i postar like em todo lugar. [:

[…] De Agosto a novembro, demorou nós montar tudo e pintar tudo.

geladeira no Thanksgiving de:

O DE GRAÇAS, EM NOVEMBRO DE:

FLAVIA: Aí, e se ninguém usar essa geladeira? se ninguém usar essa geladeira? Eu estou colocando aqui por nada.

SOMERVILLE, AGOSTO DE:

DEPOIS DE DOIS ANOS DE FUNCIONAMENTO, EU FUI COM A FLAVIA VER A GELADEIRA COMUNITÁRIA DA PRAÇA DA UNIÃO. A GENTE FOI DE CARRO

Helo: Nós chegamos na geladeira,

FLAVIA: Nós nem escolhemos. Esse local escolheu nós. E esse local também é muito bom, porque é bem fácil vir aqui. É fácil andar aqui e nós colocamos aquela luz ali. Não, nós colocamos. Ele ligou aquela luz ali pra ficar ligado de noite, então tem luz também.

CHEGANDO NO ESTACIONAMENTO DA ACADEMIA DE GINÁSTICA, NUM LUGAR SUPER MOVIMENTADO DA CIDADE DE SOMERVILLE, EU VI PRIMEIRO UMA CASINHA COM PINTURAS ALEGRES.

FLAVIA: 20 pessoas, ajudando a pintar tudo que tá na geladeira, ao redor da geladeira, make sure que está tudo bonito para pessoas querer vim para a geladeira, e não ficar: O que é isso? O que é esse negócio? Dá d e vê nos lado, é uma coisa de comida.

SIM DÁ PRA VER QUE É UMA COISA DE COMIDA PORQUE TEM A FRASE “COMIDA GRÁTIS” ESCRITA COLORIDAMENTE EM PORTUGUÊS, ESPANHOL, INGLÊS, MANDARIN E A LÍNGUA CRIOULA DO HAITI.

A GELADEIRA EM SI FICA DENTRO DENTRO DESSA CASINHA PINTADA. E EU PERGUNTEI PORQUE PRECISAVA DESSA PROTEÇÃO

FLAVIA: Humm para as tempestades, quando chuva, quando neve, ainda mais no inverno. Quando tá bem... Quando tá nevando muito aqui em Massachusetts fica, fica lá até em cima. Então nós tem pessoa que vem aqui e tira a neve da frente, mas se ficar aberta, a geladeira vai quebrar.

DENTRO DA CASINHA, ALÉM DA GELADEIRA, TEM TAMBÉM PRATELEIRAS ONDE OS ALIMENTOS QUE NÃO PRECISAM DE REFRIGERAÇÃO SÃO ESTOCADOS. NESSE DIA, POR EXEMPLO, ALGUÉM TINHA DOADO UMA CAIXA ENORME DE BATATAS DOCE. UMA LINDEZA!

FLAVIA: O abastecimento é que é a comunidade que tem que sustentar a geladeira. Então muitas pessoas vêm aqui e deixa comida, mas também tem dinheiro que nós usamos para comprar muito, muito, muita comida com dinheiro, que também pessoas doaram o dinheiro. Aí nós enche a geladeira inteira like.

E QUANDO FLAVIA FALA DE ENCHER A GELADEIRA, ELA RAPIDAMENTE DESMONTA UM PRECONCEITO QUE MUITAS PESSOAS TEM

FLAVIA: Que aqui tem muitos programas assim, pessoas que tenta doar só comida saudável, só sempre! É claro que isso é bom. Comida saudável é sempre mais caro. Só que pessoas pobre, pessoa homeless, pessoa que precisam de ajuda com comida, também merecem sorvete e doces. Mas é porque, you know, todo mundo gosta de sorvete. Mas as pessoas não pensa de doar doce, balinhas, stuff like that, quando no Halloween, um montão de pessoa doou um montão de balinha. E no Natal pessoas doaram comidas que podia ser sobremesa também. Que muitas pessoa fala: oh vou doar para esse negócio, eu vou dar só comida saudável. E é bom. Mas, as pessoas também merecem comida, que é só gostoso, [sim].

Muito programas não tratam as pessoas que precisam de ajuda e precisam de dinheiro como pessoas

E A GELADEIRA COMUNITÁRIA FUNCIONA ASSIM…

FLAVIA: O jeito que é, só você vem entrega o que você entrega. NA PORTA DA GELADEIRA TEM UMA LISTA EM VÁRIAS LÍNGUAS em inglês, português e espanhol, haitian creole. E.. chinês INFORMANDO A COMUNIDADE AS COISAS QUE PODEM SER DOADAS Não, não pode doar comida que já foi comida. Então, se você comeu arroz e feijão e não terminou o prato, não pode dar o resto do prato. E a coisa que já foi aberta. No alcohol porque tem criança também que vem aqui para a geladeira. Aí depois pras pessoas que estão pegando e só you know você só abre,

FLAVIA: Não passa uma hora sem nada na geladeira. Você doa, não passa nem uma hora e alguém já ir lá pegar. Nós vamos lá muito. Eu já vi muitas das mesmas pessoas vem vem... Pelo menos toda semana. Eu conheço uma mãe que ela tá indo lá desde quando nós abrimos que ela vai com o filho dela. Eu sempre converso com o filho dela um pouco. Ele Ele é bem pequenininho.

Eu sei que depois do primeiro mês nós já tínhamos mais que 100 voluntários em Somerville.

OS VOLUNTÁRIOS AJUDAM A BUSCAR COMIDA DOADA PELOS SUPERMERCADOS E RESTAURANTES, AJUDAM NA LIMPEZA DA GELADEIRA, AJUDAM A ENCONTRAR OUTRA GELADEIRA USADA PRA COMPRAR QUANDO UMA QUEBRA.

ESSA HISTÓRIA ATÉ AQUI ME FAZ PENSAR QUE A GENTE ADORA FILMES, NOVELAS, E LIVROS EM QUE O MUNDO É SALVO POR UMA PESSOA, POR UM HERÓI OU UMA HEROÍNA. COMO SE A GLÓRIA DE MUDAR O MUNDO É DE UMA PESSOA SOZINHA E O RESTO DA POPULAÇÃO SÃO FIGURANTES PASSIVOS. MAS FLAVIA MOSTRA O CONTRÁRIO. ELA MOSTRA QUE AS MUDANÇAS REAIS NA VIDA SÓ ACONTECEM SE NASCEREM DO ESFORÇO DE MUITA GENTE. COMO DIZ O DITADO, UMA ANDORINHA SÓ NÃO FAZ VERÃO.

BOM, O FATO É QUE A GELADEIRA COMUNITÁRIA DEU CERTO! E DAÍ FLAVIA PERCEBEU QUE SUA COMUNIDADE PRECISAVA DE MAIS GELADEIRAS. POIS UMA SÓ GELADEIRA NÃO ERA SUFICIENTE PARA MATAR A FOME DE TANTA GENTE.

FLAVIA: pra segunda nós queria colocar no outro... Em outra área de Somerville. Eu estava, eu estava ok colocando em qualquer lugar. Mas eu queria principalmente focar em East Somerville, Winter Hill, a área que eu moro, que é a área mais pobre de Somerville e a área que a maioria dos imigrantes e as pessoas negras e…

FLAVIA VOLTOU PARA AS MÍDIAS SOCIAIS PRA TENTAR CONSEGUIR UM OUTRO ESPAÇO, E ELA FEZ UM POST SUPER HONESTO DA SITUAÇÃO

FLAVIA: Nós postamos no instagram da geladeira. "Se você tiver um espaço que nós pode usar.." E nós explicamos no post tudo que a eletricidade vai subir, provavelmente 30, 30, 40, dá todo mês que nós pode pagar isso se quiser. Vai ter muitas pessoas andando e muitas pessoas parando na sua casa, parando no espaço. E... Porque vai ter comida fora, nós vão manter o mais limpo possível, mais Somerville tem muito rato, muito rato em Somerville, e vai chamar um pouquinho, Vai chamar mais com comida do lado de fora. Nós explicamos tudo e postamos.

QUEM LENDO UM POST DESSE RESPONDERIA OFERECENDO UM LUGAR?

MAS SEGUINDO NA NOSSA CONVERSA, FLAVIA FOI ME CONTANDO DO ATIVISMO DELA EM OUTRAS CAUSAS, COMO POR EXEMPLO, JUNTO À IMIGRANTES NÃO DOCUMENTADOS, CAUSAS FEMINISTAS E DE JUSTIÇA RACIAL. E DAÍ ELA CONTOU QUE UM DIA PARTICIPANDO DE UM PROTESTO, ALGO LHE ACONTECEU

FLAVIA: Eu estava num protesto e a polícia estava, like, speeding na rua tentando atropelar as pessoas. Todo mundo estava correndo assim, e teve um momento em que eu fui esconder assim atrás de um carro. Que eu tava com medo também que ele estava atirando . Então eu fui assim e eu fiquei num momento de pânico que eu só eu tive quase um flashback. E eu lembro quando nós tava vindo pra América, teve um momento que nós tava correndo, correndo, correndo. Aí nós escondemos atrás de um carro e era porque tinha cachorro, like correndo, like o border patrol tinha cachorro procurando pessoas. E eu... Era so... Era tão estranho que eu não tinha pensado nisso em tanto tempo, mas eu acho que naquele momento o meu corpo fazendo o mesmo movimento de que já fez outra vez, que era de trauma, eu senti assim, oh my gosh! eu estou na mesma situação que eu estava aquele dia.

ONCEIÇÃO DO ARAGUAIA, PARÁ:

PRA GENTE ENTENDER O TRAUMA QUE SE MANIFESTOU DE FORMA TÃO VÍVIDA NO CORPO ADULTO DE FLAVIA, NÓS VAMOS PARA CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA E SEGUIR UM OUTRO FIO QUE MAIS TARDE VAI SE ENTRELAÇAR COM O FIO DE FLAVIA.

EM JANEIRO DE:

[nome da KEILA] Keila Mendes de Sousa

KEILA: Eu não fui criada com a minha mãe, então o nosso relacionamento é de irmã, o pai dela me criou dos quatro meses nascida até eu casar. Então, a minha mãe é minha irmã. No documento, eu sou irmã da minha mãe, eu sou registrada como filha dos meus avós. Depois que eu entendi que ela era a minha mãe, que até uns cinco seis anos eu pensava que ela era minha irmã.

KEILA É A MÃE DE FLAVIA. ELA É A MULHER SEGURANDO O BEBE NA FOTO QUE EU VI NO PERFIL DE INSTAGRAM DE FLAVIA. MAS ANTES DE CHEGAR NESSA FOTO EU QUERO FICAR AQUI SEGUINDO O FIO DA INF NCIA DE KEILA.

KEILA: O meu avô me criou muito bem. Mas, o bem que ele pode me criar foi o que ele podia me oferecer: o alimento.

Então, e o meu avô falava para mim: Planta a sua própria árvore para você nunca depender da sombra de ninguém

EM:

KEILA: Meu avô não tinha condições. Igual eu falei pra você, eu tinha comida. Eu tinha nove anos. Eu queria ir pra escola, poder comprar a minha mochila boa. Eu queria comprar meu material, eu queria ter minhas coisas. E daí a gente foi morar na cidade. Por incrível que pareça, na roça a gente tinha conforto, mas na cidade você tem que ter dinheiro. Para você viver, você tem que ter dinheiro na cidade.

Na casa dos outros. Eu era empregada doméstica, como em 89. Eu tinha nove anos. [o que você fazia?] Tudo.

Eu saia da escola 11h00 eu ia para lá. Então tinha que limpar toda cozinha do almoço. Aí depois que eu ia comer para eu poder ajeitar o resto da casa. E 5 e meia, seis horas eu ia embora..

E NAS CASAS DAS BOAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS, UMA CRIANÇA DE 9 ANOS FOI EXPLORADA E HUMILHADA

KEILA: E ela colocava minha comida dentro do fogão. Eu só podia comer quando eles todos terminassem de comer. Que eu limpasse a cozinha todinha do almoço. Aí eu ia, sentava numa... Eu tinha uma mesa de comer igual assim, mais ou menos num deck que eu não usava a cozinha para eu comer. Eu lembro que eu comia fora. E eu lembro que a comida ficava lá dentro do fogão. Eu morrendo de fome e aquela comida cheirando dentro daquele fogão. E eu tinha que comer depois que terminasse de comer todo mundo e eu tinha que limpar a cozinha do almoço e aí eu ia comer [e você não podia se servir?] Não. E não. Eu não podia usar nenhum outro prato, nem um outro copo. Eu só usava o mesmo prato, o mesmo copo, o mesmo talher. A colher, no caso. E ela colocava o suco. Ela colocava toda a comida. O que eles comiam, eu comia, mas nessas...nessa situação.

KEILA TRABALHOU EM MUITAS OUTRAS CASAS DE FAMÍLIA, E A SITUAÇÃO DESUMANA SE REPETIA

KEILA: na casa de muita gente, de muita gente. Inclusive eu trabalhei na casa de uma chinesa que fazia a mesma coisa, separava meu prato. Então, eu comecei a achar que isso era normal.

AOS 10 ANOS DE IDADE, KEILA CONVENCEU A DIRETORA DA ESCOLA PÚBLICA A DEIXAR QUE ELA MUDASSE DE TURNO

KEILA: Na quarta série. Quando eu passei da terceira para quarta... Para eu ter um dia inteiro para trabalhar, ai eu passei a estudar a noite.

DOS 10 AOS 13 ANOS ELA TRABALHOU EM UMA CASA NA QUAL ELA LIMPAVA, ARRUMAVA, COZINHAVA E ENTREGAVA O ALMOÇO DA PATROA NO TRABALHO DELA

KEILA: Eu levava o almoço lá no banco para ela. Eu entrava naquele banco pra levar almoço.

ALÉM DISSO, ELA AINDA CUIDAVA DA FILHA DA PATROA E DA PRIMA QUE ERAM CRIANÇAS DA MESMA IDADE QUE ELA

KEILA: Mas eu amava porque? Porque a dona deu a oportunidade para uma escola estadual. Era meu sonho para a escola estadual e eu fui para escola estadual, escola estadual, usava uniforme. Então, para mim era tipo caramba, agora eu vou para a escola estadual, eu fui pra escola estadual.

KEILA SABIA QUE ERA EXPLORADA, MAS ELA TAMBÉM APRECIAVA OS GESTOS DE GENEROSIDADE DOS PATRÕES QUANDO ESTES ACONTECIAM

KEILA: A dona me deu a primeira barbie da minha vida de presente de Natal, me deu uma bicicleta Ceci da época, de cestinha. Eu não tinha condição de fazer isso.

Saí de lá porque as meninas todas foram pra escola. A família parou de precisar de mim.

[PAUSA]

KEILA CONTINUOU TRABALHANDO COMO DOMÉSTICA, MAS ELA FEZ UMA PROMESSA AO PAI QUE A CRIOU

KEILA: Eu só vou ter essa vida até meus estudos, me fornecer um emprego melhor. Mas um dia eu paro. Um dia eu paro. O pai pode ter certeza que um dia eu paro.

UM DIA OUVINDO RÁDIO ENQUANTO TOMAVA BANHO, KEILA ESCUTOU QUE O RESTAURANTE MAIS CHIQUE DA CIDADE DE CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA ESTAVA CONTRATANDO PESSOAS. ELA ANUNCIOU PRA TIA QUE IA SE CANDIDATAR A VAGA

KEILA: Minha filha tu acha que pobre consegue uma vaga? Eu falei Tia, não sei. Pelo sim, pelo não, eu vou assim mesmo.

KEILA: Eu fiquei gerente desse restaurante,

KEILA TINHA SOMENTE 16 ANOS

KEILA: Mas eu continuei estudando à noite. Então eu ia para lá às 06 horas da manhã. De lá, ia para a escola. Eu saía da escola e ia para lá de novo, que lá fechava três. Eu dormia 03 horas. Ninguém me via. De domingo a domingo, eu trabalhava.

Eu era pobre, eu tinha que ter dinheiro, o que eu tinha que fazer? Eu amava fazer minha unha e eu aprendi ser vaidosa, fazer unha. Sempre tive cabelão

Não tinha dinheiro, mas eu tinha foco.

KEILA SAI DESSE EMPREGO PORQUE CONSEGUIU ALGO MELHOR NA LOCADORA DE VÍDEO DA CIDADE. COM 18 ANOS, ELA CASA. QUANDO ELA TINHA 19 ANOS ELA DEU À LUZ A FLAVIA RAVENA DE SOUSA. MESMO ASSIM ELA CONTINUA ESTUDANDO, ENTRA NA FACULDADE E ESTUDA LETRAS. NESSE MOMENTO ELA OUVE QUE O BANCO DO ESTADO DO PARÁ IRIA ABRIR CONCURSO.

[KEILA: qual o banco? Aquele que eu lá com 12 anos eu levava comida.

KEILA: Eu passei no concurso do banco! Eu falei, não acredito que eu passei.

E A COLEGA DE TRABALHO DE KEILA ERA NINGUÉM MENOS QUE SUA ANTIGA PATROA

KEILA: Trabalhava na casa dela, de empregada doméstica, que eu levava almoço pra ela lá. Na hora de almoço, eu levava almoço para ela, que ela trabalhava no banco.

A moça que eu fui substituí-la era exatamente a menina.... Era a que eu cuidava dela,

O mundo dá muita volta fia, dá muita volta.

Mas eu honrei a minha palavra. Eu falei: Eu só vou ficar na cozinha dos outros até meu estudo me fornecer um jeito mais favorável.

Mas eu fui lá para aquele banco que eu levava almoço minha filha. E a minha funcionária levava almoço pra mim lá no banco! Eu falava, eu não disse que ia acontecer isso comigo!

KEILA: Eu tinha minha casa própria, eu tinha meus dois trabalho. [O que você fazia?] Eu trabalhava no banco e eu era gerente de uma empresa de cosmético. Eu tinha eu, meus produtos e eu tinha as pessoas que vendia para mim. E ali eu tinha a minha comissão, que eu já tinha conseguido vender o suficiente para eu ser gerente. Então, até eu chegar a gerente, eu vendi muito batom.

O MUNDO REALMENTE DÁ VOLTAS. E A GENTE SEGUE COSTURANDO COM AS LINHAS DE NOSSAS EXPERIÊNCIAS, DESEJOS E RELACIONAMENTOS O TECIDO DE NOSSAS VIDAS. E O TECIDO DA VIDA DE KEILA E FLAVIA ESTAVA PRESTES A SE RASGAR

KEILA: E eu não planejei vir para cá... Ela tinha três anos de idade

MÉXICO E ESTADOS UNIDOS, ANO:

LOGO DEPOIS DO NASCIMENTO DE FLAVIA, O PAI DELA MIGRA PARA OS ESTADOS UNIDOS. KEILA CRIOU A FILHA SOLO, DENTRO DA TEIA PROTETORA DE SUA COMUNIDADE DE AMIGOS E FAMILIARES, EM CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA. MAS, SEGUINDO O DESEJO DE TER UMA FAMÍLIA JUNTO COM MARIDO DISTANTE E O DESEJO DE DAR UMA BOA EDUCAÇÃO PARA A FILHA, KEILA ESCOLHE TAMBÉM MIGRAR SEM O VISTO.

QUANDO DEIXAMOS OS FIOS DA HISTÓRIA DE FLAVIA, ELA CONTAVA DE UM TRAUMA QUE ELA REVIVEU NO PRÓPRIO CORPO

FLAVIA: eu senti assim, oh my gosh! eu estou na mesma situação que eu estava aquele dia.

O DIA QUE FLAVIA SE REFERE É ESSE

FLAVIA: Eu não lembro tudo. Eu lembro quando nós estava falando tchau e vendendo tudo. Não estava entendendo tudo que estava acontecendo. Ela falou Nós vamos para a América, lembra conhecer seu pai? Eu estava muito... Que eu nunca tinha conhecido meu pai. Só era na minha cabeça, era o meu pai da América. Que eu sempre falava: Eu quero mandar uma foto pro meu pai da América (risos) E que eu achava a América chique.

FLAVIA: Só que nós viemos pelo México, só nós duas e também não tinha nenhuma outra criança lá. Eu lembro, uma coisa que eu lembro é eu vestindo um montão de roupa (risos) pra nós não ter que levar mala que era indo pelo México. E nós só fomos. Aí eu não lembro tudo. Só que eu lembro umas coisas. Igual eu lembro, nós indo prum montão de motel com 15, 20 pessoas todo, que nós tudo era... Estava viajando juntos pelo México. Aí eu também lembro uma vez que nós tinha que a... Por cima de uma cerca. Aí a minha mãe foi primeiro e eu pensei que estava...Eu nem sei que eu pensava, mas eu pensei: oh my gosh! cadê a minha mãe? O que está acontecendo com a minha mãe? Eu comecei a chorar.

E eles shiiiii! Aí me jogaram por cima assim. Aí minha mãe me pegou. Aí eu também lembro uma hora que nós estava correndo, que tinha cachorro, mas nós estava correndo, correndo, correndo. Eu estava no colo da minha mãe, mas correndo. Aí depois escondemos atrás de um carro. Essa é a última coisa que eu lembro. [inserir pausa]

Aí do nada, a próxima memória nós tá dirigindo na rua assim de Massachussets. Minha mãe falou: Nós tamo indo pra casa. it's okei! E nós tava indo para conhecer meu pai, minhas tias e tudo.

de fevereiro de:

NOVA VIDA EM SOMERVILLE, ANO:

KEILA: Cheguei quinta e comecei trabalhar na sexta.

POUCO TEMPO DEPOIS DA CHEGADA AO ESTADOS UNIDOS O CASAMENTO DE KEILA SE DESFEZ. ELA E FLAVIA SE INSTALAM EM UM PEQUENO APARTAMENTO NO PORÃO DE UMA CASA NA ÁREA MAIS AO LESTE DA CIDADE DE SOMERVILLE, ÁREA CONHECIDA POR ABRIGAR MUITOS IMIGRANTES E POR SER UMA DAS ÁREAS MAIS POBRES DA CIDADE

KEILA: E Somerville virou nossa casa.

FLAVIA: E nós sempre morava nessa área, nós nunca saía dessa área de Somerville. Eu pensei que era porque nós gostava desse lugar aqui.

KEILA: E aí quando eu ia mudar de casa, . Eu procurava não sair de Somerville por causa da escola. A melhor coisa da vida. Eu nunca mudei nada de Somerville.

DO JARDIM DE INFÂNCIA ATÉ O OITAVO ANO, FLAVIA FREQUENTOU A ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL DA ZONA LESTE CHAMADA WINTER HILL COMMUNITY SCHOOL

FLAVIA: é a única escola que aceita crianças que não falam inglês, então todo mundo vai lá. Eu fui lá do Kindergarten até a oitava série. Eu estava lá há dez anos. E tinha, eu acho, que foi cinco crianças branco e americano na minha classe, e tinha 30 crianças na minha classe, que era uma classe muito grande. Então era muita criança e só tinha cinco americanos lá. E um dele era o meu marido.

SIM, FLAVIA HOJE É CASADA COM UM AMERICANO BRANCO QUE ELA CONHECEU NA ESCOLA. MAS ANTES DE CHEGAR NESSA PARTE, EU QUERO CONTAR QUE FLAVIA ABSOLUTAMENTE AMAVA A ESCOLA DELA. ALIÁS ELA ERA A ALUNA MAIS PREMIADA DA ESCOLA INTEIRA. NINGUÉM TIRAVA NOTAS MAIORES QUE FLAVIA, E KEILA TEM VÁRIOS ÁLBUNS COM TODOS OS CERTIFICADOS PARA PROVAR. AS PROFESSORAS ADORAVAM FLAVIA E AMAVAM A PARTICIPAÇÃO E AJUDA DE KEILA EM TODOS OS EVENTOS QUE A ESCOLA PROMOVIA.

RAR A REAL EM SOMERVILLE, ANO:

QUANDO FLAVIA TERMINOU O ENSINO FUNDAMENTAL E PASSOU PARA A ESCOLA DE ENSINO MÉDIO, QUE EM INGLÊS É CHAMADA DE HIGH SCHOOL, ELA COMEÇOU A ENXERGAR O QUE ESTAVA BEM NA FRENTE DELA

FLAVIA: Tinha racismo naquela escola, claro. Só que era muito menos porque nós tudo era... Todo o mundo é tem pele igual à minha e parecia o mesmo jeito. Era, era mais difícil.

Então crescendo também foi bem: "Ah,tudo é bom aqui, todo mundo se gosta. Não tem nenhum problema aqui nessa cidade, todo mundo respeita imigrante" mas era porque as pessoas que estava ao meu redor era só imigrante também (risos). E era só crianças de outros países, crianças negras.

ELA OLHOU PRA SOMERVILLE E VIU RACISMO E TAMBÉM VIU O GRANDE ABISMO QUE SEPARA OS QUE TÊM DAQUELES QUE MUITO POUCO TÊM

FLAVIA: Eu ia para a casa da minha amiga no fim de semana e a mãe dela estava só lá assim. É por isso que eu percebi também que nós era pobre, porque quando nós viemos aqui até hoje é o mesmo jeito mesmo, o mesmo tanto de horas, mesmo dias tão duro.

ERA DURO MESMO A ROTINA DE KEILA, E AQUI ELA TE CONTA

KEILA: Aqui, Limpava a casa, ia pro salão no fim de semana e à noite trabalhava no part time, limpava escola, limpava day care, limpava a agência de carro, limpava... A noite fazia muito trabalho. trabalhando de domingo a domingo.

FLAVIA:do jeito que eu entendia a América,. Eu pensava América aqui é chique, todo mundo tem dinheiro, tudo chique. Vendo minha mãe trabalhar. Isso foi… Isso passou rápido. Eu vi que a minha mãe tem que trabalhar é todo dia!

E FLAVIA CONTINUOU PERCEBENDO MAIS E MAIS DESIGUALDADES NA CIDADE DE SOMERVILLE

FLAVIA: E tudo mudou parece que foi na high school que quando eu percebi as diferença assim tão grande, because até quando eu fui para a high school e eu fui para a casa de alguém, pela primeira vez eu vi um quintal gigante fechado assim... Era a casa só deles.. Não tinha ninguém morando no primeiro piso e no terceiro piso. Era só a mãe, o pai, as duas filhas. Nessa casa gigante. Eu falei uau! Eu nem sabia que existia casa assim em Somerville.

"Direito são muito importante aqui, nós ama os imigrantes, ama os whatever", mas quando você está dentro da comunidade mesmo, você vê o jeito que é bem separado. Tudo é bem separado, os brancos e os que não são brancos. Os imigrantes e os que são daqui. É muito, muito, muito estranho (risos). Então é muito interessante ver o jeito que Somerville fala sobre Somerville.

FOI NESSE MOMENTO DE ADOLESCÊNCIA QUE FLAVIA TAMBÉM VIU QUE GAROTAS COMO ELA NÃO ESTAVAM NAS AULAS DE ESTUDOS AVANÇADOS DO ENSINO MÉDIO.

FLAVIA: Eu olhei assim, e eu was like: Oh my gosh! É Só eu. Todo mundo aqui é branco.

ELA TAMBÉM CONSEGUIU ENTENDER O PORQUÊ DE SÓ TER BRANCOS NESSAS AULAS

FLAVIA: Porque as crianças brancos e ricos têm mais oportunidade de ter alguém ajudar com o dever de casa. Os pais, eles não têm que pensar o que vai comer. Os pais podem ajudar. Não tem que ajudar a limpar a casa, não têm que ajudar a cuidar dos irmãos, tem que só focar na escola.

E FOI NO MEIO DESSA AVALANCHE DE NOVOS ENTENDIMENTOS QUE ELA PERCEBEU QUE PRECISAVA LIDAR COM O MEDO DE NÃO TER PAPEL, OU DOCUMENTO, QUE CHEGAVA A PARALISAR SUA RESPIRAÇÃO

FLAVIA: A minha mãe, fez... Criou um mundo na minha cabeça que tudo é possível para mim (risos) então e tudo vai dar ok, tudo vai dar certo. A minha mãe, tudo vai dar certo, nós sempre acho o jeito. Então, na minha cabeça crescendo, eu ia ter papel já na high school. Aí só não deu, só não deu,like... Tão caro, tão difícil, então.

E eu estava com muito medo de alguém descobrir isso. Eu nem falava. Eu até high school nem falava para ninguém o meu, o meu nome, meu, meu nome inteiro. Eu falava era só FLAVIA de Souza. Eu pensava: oh vai me pesquisar e vai saber que somos imigrante? Eu não estava... Tinha dez anos. Então na minha cabeça: já sabia meu nome inteira, sabia o nome da minha mãe inteiro, vai saber. Então ninguém sabia. Nem a minha melhor amiga, ninguém. Eu não falava para ninguém. Que eu tinha muito medo na minha cabeça. Se alguém soubesse, é ilegal. Então alguém vai chamar a polícia e minha família vai ser deportada Hoje!

FLAVIA CONSEGUIU OBTER UM DACA. DACA É UM DOCUMENTO DE PROTEÇÃO TEMPORÁRIO CONCEDIDO PELO GOVERNO AMERICANO PARA OS JOVENS E ADULTOS IMIGRANTES QUE FORAM TRAZIDOS PARA OS ESTADOS UNIDOS QUANDO CRIANÇAS.

FLAVIA: Falei: Nossa mãe, finally alguma coisa para nós? Ela falou: Não, não é para mim, é só para estudantes. E eu estava tão confusa porque eu não tinha aprendido nada. Então, na minha cabeça eu falei: Como assim? A senhora veio comigo, a senhora trabalha, a senhora paga a taxa taxes, como? Como que a senhora não, não tem a oportunidade para a senhora. Ela falou: só não tem.

SIM, O DACA É UM DOCUMENTO TEMPORÁRIO SÓ PARA OS FILHOS DE IMIGRANTES, NÃO PARA OS SEUS PAIS. COM O DACA EM MÃOS, FLAVIA SENTIU-SE UM POUQUINHO PROTEGIDA PARA SER ATIVISTA PELOS IMIGRANTES NÃO DOCUMENTADOS. ENTÃO ELA COMEÇOU A DECLARAR PUBLICAMENTE SUA IDENTIDADE.

FLAVIA: Brasileira, Preta, undocumented.

“UNDOCUMENTED” SIGNIFICA SEM DOCUMENTOS PARA TRABALHAR E RESIDIR NOS ESTADOS UNIDOS

SUA MÃE KEILA, SE RECUSOU NESSES ANOS TODOS A COMPRAR UMA CARTEIRA DE MOTORISTA FALSIFICADA, COMO FAZEM MUITOS IMIGRANTES

KEILA: Prefiro que a polícia me pare, "tem carteira?", não. E você sabe porque que eu não tenho, não é porque eu quero. Eu não tenho porque o Estado não me permite. Eu não tenho carteira, não é porque eu não quero. Vai lá e diz para o governo liberar a carteira para imigrante, que você vai ver se você vai me parar e eu não vou te dar um driver licence.

Agora eu trabalho limpando três, quatro, casa sozinha durante o dia, correndo risco, dirigindo, pagando imposto de renda ainda desse dinheirinho que eu ganho. E eu pago imposto por obediência, porque eu sou muito grato por essas ruas arrumadinha.

FLAVIA: Eu fiquei com tanta raiva assim, como? Minha mãe trabalha tanto, ela não tem nenhuma chance de sair disso?

EU TENHO QUE DIZER QUE TRABALHAR NO FAXINA PODCAST E OUVIR ESSAS HISTÓRIAS EMPURRADAS PARA DEBAIXO DO TAPETE FAZEM MEU CORAÇÃO FICAR APERTADO E AFLITO. ENTÃO EU VOU ALI MARCAR UMA HORA COM A MINHA TERAPEUTA, JÁ JÁ EU VOLTO COM O RESTO DA HISTÓRIA, ENQUANTO ISSO, ESCUTA ESSA MENSAGEM DO COLETIVO PSISOCIAL.

AGORA VOLTANDO AO EPISÓDIO.

OS TRAUMAS DA MIGRAÇÃO PELO MÉXICO, O RACISMO, O MEDO DE SER DEPORTADA, TUDO ISSO DEIXOU MARCAS NO CORPO DE FLAVIA. E OS NOSSOS CORPOS SÃO REAIS. OS NOSSOS CORPOS SENTEM E GUARDAM AS MEMÓRIAS DE TRAUMAS VIVIDOS.

TRAGICAMENTE, HAVIA AINDA UMA OUTRA MEMÓRIA, MUITO, MUITO QUE O CORPO DE FLAVIA GUARDOU

LTANDO A SOMERVILLE DO ANO DE:

FLAVIA: Muitas coisas que estavam acontecendo comigo crescendo eu pensei que era só eu. E eu era like crazy.

Não contei nada para ninguém. Quase nunca até tive 15 anos.

QUANDO FLAVIA INICIOU NO ENSINO MÉDIO, ELA COMEÇOU TER ATAQUES DE PÂNICO QUASE QUE DIARIAMENTE NA ESCOLA

FLAVIA: Eu não estava bem, dava de ver. Eu dormia todo dia, eu chegava da escola eu ia dormir, like de 3 horas eu acordava às 8 da noite. Eu comia janta e eu voltava a dormir. Quando saí do meu quarto eu não queria conversar com ninguém. Minhas notas estavam ruim,

UMA PROFESSORA PERCEBEU E ENCAMINHOU A FLAVIA PARA UMA TERAPEUTA. MAS INFELIZMENTE EXISTE UM PRECONCEITO GRANDE SOBRE TERAPIA E SAÚDE MENTAL NA COMUNIDADE BRASILEIRA

FLAVIA: Minha mãe falou não, que não precisava. Eu não era doida.

POR UMA CONFUSÃO DA ESCOLA,QUE ACABOU ENVIANDO UMA CARTA DE AUTORIZAÇÃO PARA O PAI EM VEZ DA MÃE, E O PAI SEM SABER DO QUE SE TRATAVA ASSINOU, FLAVIA CONSEGUIU IR PARA A SESSÃO DE TERAPIA

FLAVIA: Aí eu contei a história, essa therapist foi a primeira pessoa que contei, like, tudo para ela. Tudo o que eu tinha, a.

Cinco, seis... Quatro cinco seis! Não, Cinco,seis. Yeah! Eu acho que foi esses dois anos aí.

Foi trauma sexual com ...O marido da minha babysitter, quando eu era criança. Ahn.

EU NUNCA IMAGINEI AO CONHECER A FLAVIA QUE ELA CARREGOU ESSA DOR TÃO GIGANTE DENTRO DELA. AOS 5 ANOS DE IDADE FLAVIA FOI VÍTIMA DE UM CRIME HEDIONDO COMETIDO PELO MARIDO DE SUA BABÁ, UM HOMEM. SEMPRE UM HOMEM. UM HOMEM QUE ERA PAGO PELA SUA MÃE PARA CUIDAR DELA. ESSE CASAL DE BRASILEIROS TAMBÉM CUIDAVA DE OUTRAS CRIANÇAS, FILHAS E FILHOS DE FAXINEIRAS

FLAVIA: O jeito que a minha mãe descobriu foi porque a filha de outra menina no day care a mãe dela descobriu o que estava acontecendo com ela. Então a minha mãe me perguntou um dia quando ela pegou da escola, like... se alguma coisa já aconteceu. E eu estava com muito medo, porque ele tinha me convencido que minha mãe brigar comigo MUITO se ela fosse descobrir como foi o negócio que eu estava fazendo errado. Errado.

Ok a minha mãe não pode saber se ela vai brigar comigo, então quando ela perguntou, eu tava like... uhhh Ela vai brigar comigo. Eu falei... Eu comecei a chorar. Falei, desculpa. Minha mãe só começou, you know... chorar. Ahn. Ela falou para mim que: VOCÊ NÃO FEZ NADA ERRADO. Nada, nada, nada. Você...

Então, o jeito que ela pensou que era o melhor para me ajudar era falar que nós... it is ok, nós vamo esquecer o que aconteceu. Nós nunca mais vamos falar disso. It's ok, esquece.

COMO ESQUECER ALGO QUE DEIXA MARCAS TÃO PROFUNDAS?

FLAVIA: E não, não é culpa da minha mãe totalmente, que ela só não sabia. Isso é uma coisa muito grande para tentar ajudar sua criança, like you know.

Então na minha cabeça eu falei Ok, Quando a coisa ruim acontece, nós só não vamos falar nada. Então, até 15 anos eu. Todas as coisas estavam acontecendo comigo, todas as coisas que eu estava passando, que eu estava pensando, que eu estava fazendo eu eu só não contava para ninguém. Era só a minha coisa assim na minha cabeça, like cê não fala para ninguém, é como nem existe! Então, contando tudo pra my therapist, assim. Assim, pela primeira vez, com 15 anos, eu foi, foi. Eu não contei. O jeito que eu estou contando para você agora. Foi bem like, chorando e bem que... Eu tava só chorando, nem conseguindo respirar.

Por muito tempo na minha cabeça, um dos meu negócio, um dos negócios maior que eu tava sentindo, que era a minha culpa que aconteceu com as outras meninas que I was like. Ai Se eu tinha falado para a minha mãe like... Nada ia acontecer!

Eu fui diagnosticada com depressão. Eu não sei se é a mesma coisa em português, só que traduzindo as letras da PTSD trauma e ansiedade quando eu tive 15 anos.

FLAVIA CONTA A HISTÓRIA DE SEU TRAUMA SUFOCADO SEM OLHAR PRA MIM

FLAVIA: Também não consigo, eu acho que cê probably percebeu, olhar assim quando estou contando a história, yeah yeah.

O CRIMINOSO E SUA ESPOSA FUGIRAM PARA O BRASIL, MAS FICARAM MARCAS DO CRIME HEDIONDO. UMA TRADICIONAL LOJA DE CONVENIÊNCIA NO BAIRRO ONDE FLAVIA MORAVA FOI POR MUITO TEMPO PARTE DA LEMBRANÇA DESSA IMENSA DOR.

FLAVIA: O problema era que ele levava as crianças para casa no fim do dia e eu era a última criança para deixar em casa, so... Nós também passava na lojinha e pegava um montão de bala, candy, all that stuff… ele...ele me levava lá para comprar com Cottom Candy, que eu amava Cotton Candy. E era o negócio para mim não contar para a minha mãe… vendo aquela loja sempre me dava pânico. Aí depois fecharam e todo mundo em Somerville estava muito triste. Eu entendo porque, you know, like "tá fechando essa loja que foi parte da nossa comunidade forever." Mas para mim, ainda mais que eu estava morando ali do lado, I was like...ahhh Finalmente! Eu não preciso nem agora… Então é melhor agora pra mim conseguir morar lá sem ter que vê-la, you know, bem ali, like uau!... Foi yeah…

HOJE, O LUGAR DA ASSOMBRADA LOJA FOI DIVIDIDO EM DOIS, DE UM LADO FUNCIONA UMA PRÉ-ESCOLA E DO OUTRO UM ESTÚDIO DE TATUAGEM.

[POESIA DE TRACY FIGG DECLAMADA POR JAZZ KAIPORA]

FLAVIA: . Uma das partes que ficou muito pesada na minha vida, muito tempo foi que eu senti como foi a minha culpa que aconteceu comigo e aconteceu com outras pessoas que eu não falei nada. So... Eu gosto agora de contar. E depois pessoas, like... Pais sabem que o quê pode acontecer num day care, like…

Já conversei com as pessoas que ficam...like, depois que eu contei, assimm ficava: humm eu acho que alguma coisa aconteceu, mas eu não estou lembrando. And me like, yeah, não, isso é normal! Like, eu não lembrava. Eu lembrava tudo. Só que eu lembrava como alguma coisa que eu inventei, ou que que eu sonhei. like... E contando falando mais sobre faz eu lembrar. Não de um jeito que eu vejo tudo, mas só que eu me acredito mais. Like, não isso aconteceu. Eu não sou crazy, eu não sonhei. Isso aconteceu de verdade.

Mais o que eu conto que a memória fica mais, fica mais real.

Eu acho que contando a história me ajuda um pouco, mesmo que é difícil falar sobre todas as coisinhas assim.

HELO & FLAVIA: you are such a beautiful, beautiful woman. [choro] Thank you. Beautiful [choro] you are so kind. So beautiful! so amazing! so intelligent! So articulated! thank you

[TRANSIÇÃO]

TECENDO NOVAS TEIAS DE AMOR E SUPPORT EM SOMERVILLE

KEILA: Eu sempre olhei para a minha filha no olho dela e falei, você é linda! Se alguém um dia disser "Eu não te amo", você diz, Não me importa. O amor da minha mãe é suficiente pelo seu. Está tudo certo. "ah Você é feia" Muito obrigada, eu não preciso de seus elogios pra viver, eu não te conhecia até ontem.

COM A AJUDA DA MÃE E DE SUA COMUNIDADE DE IMIGRANTES DO PARÁ, FLAVIA SEGUIU A VIDA.

FLAVIA: Todo mundo que eu cresci, like todo mundo...a Pessoa que fazia minha unha, fazia meu cabelo, que... Nas lojas que nós ia comprar a comida, o... Tudo. Onde a minha mãe trocava cheque. Tudo. Era só brasileiro do Pará. Então foi muito, muito interessante para mim, porque eu pensei. Então eu também pensei que todo mundo sabia onde era Pará e todo mundo conhecia Pará. Eu conhecia outros brasileiros que não eram do Pará na escola, eu falava: Pará. Aí Eles, não sei o que é isso. Não sei esse esse Estado. Falei como? É um dos maiores! Eles: Não, não conheço.

É EU SEI BEM COMO É ISSO FLAVIA. INFELIZMENTE ALGUNS BRASILEIROS NÃO CONHECEM O NORTE DO BRASIL.

FLAVIA: Bebida favorita no mundo é cupuaçu ou vitamina de cupuaçu(risos). Todo dia, quase todo dia, Eu pego pelo menos uma ou duas vitaminas de cupuaçu que eu amo! Oh my gosh! Não consigo viver sem tomar (risos) [Helo: e não consigo também. Amo cupuaçu, doce de cupuaçu, amo cupuaçu] tudo de cupuaçu eu amo. Agora eu já fiz todo mundo na minha vida experimentar também com todos os meus amigos americano amam o cupuaçu.

AH DELICIA! SE TU QUE ESTÁS OUVINDO ESSE EPISÓDIO NÃO CONHECES CUPUAÇU, FAZ UM FAVOR, DEPOIS DESSE EPISÓDIO VAI TOMAR UM SUCO DE CUPUAÇU E DEPOIS AGRADECE A MIM E A FLAVIA.

TAM A LHE ADOECER O CORPO. EM:

FLAVIA: Por um mês estava lá no hospital, tentando cuidar da minha da minha saúde. Eu comecei ser babá porque eu queria trabalhar, só que não tinha trabalho que eu podia trabalhar, porque eu não tinha autorização para trabalhar aqui na América, eu não tinha permissão. Então eu fiz o que parece todo imigrantes brasileira faz, a mulher, que é ou Babá, ou limpar a casa. Eu não quis limpar a casa, só vendo o jeito que a minha mãe trabalhava. Eu falei: Eu vou ser babá.

KEILA: Quando eu vim para cá, todo mundo vem com um sonho. Eu falei o meu foco é a educação da minha filha, a educação da minha filha. Eu sempre disse, você não vai limpar casa porque isso não é profissão, é sobrevivência. Isso é sobrevivência.

SOMERVILLE:

LEMBRA QUE DEPOIS DE ABRIR A PRIMEIRA GELADEIRA COMUNITÁRIA A FLAVIA FEZ UM POST NAS MÍDIAS SOCIAIS PROCURANDO UM NOVO ESPAÇO PARA A SEGUNDA GELADEIRA?

LEMBRA QUE O POST FOI SUPER HONESTO SOBRE O AUMENTO NO CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA E OS PROBLEMAS COM RATOS QUE PODEM TER, CASO VOCÊ EMPRESTE UMA ESPAÇO NA SUA GARAGEM OU NO SEU JARDIM PARA COLOCAR UMA GELADEIRA COMUNITÁRIA?

POIS ENTÃO…

FLAVIA: Nós explicamos tudo e postamos. Aí ele mandou mensagem para nós e falou: Eu tenho um espaço bem na frente da minha casa, que tem acesso da calçada, bem no Winter Hill, que nós falou preferência para o Winter Hill. Mas qualquer lugar em Somerville é bom. Claro que, you know, Geladeira em qualquer lugar é bom. E ele falou pode colocar aqui.

EM JULHO DE:

A PREFEITURA DA CIDADE DE SOMERVILLE NÃO APOIOU O PROJETO. O ÚNICO APOIO OFERECIDO FOI O DE COLOCAR POLÍCIA PARA VIGIAR A GELADEIRA.

FLAVIA: Nós like, N O! nós não quer isso (risos). Isso é a última coisa que nós quer é a polícia na geladeira. Ninguém vai ir, like nem pessoa que não tem problema quer ir.. Eu falei você sabe que a maioria das pessoas que vêm pra geladeira não falam inglês, são imigrante nunca, nunca.

É só comida de graça. Não tem mais nada. Não tem câmera. Muitas, muitas, muitas. Muitas pessoas falam para nós colocar câmera na geladeira, para colocar a pessoa que fica sentada aqui do lado de fora o dia inteiro, pra ter um papel que todo mundo tem que assinar quando vem e usa. Pra pessoa até falar o tanto que pegou. E nós falou, não, isso não vai, isso... nós não quer colocar nada. É comida. Nós falou: tem que ser o mais simples possível, porque tem que comer, só isso. Tem que comer. Vai morrer sem comer. Você não precisa dizer nada pra ninguém pra comer. A pior pessoa do mundo ainda tem que comer (risos). Então, se tivesse alguém sentado aqui, eu sei que eu nunca ia parar na geladeira com alguém sentado assim, esperando so...

FLAVIA SÓ QUERIA QUE TODAS AS PESSOAS SE SENTISSEM DIGNAS, SE SENTISSEM BEM USANDO A GELADEIRA COMUNITÁRIA,

FLAVIA: Ainda mais as pessoas que usa muito, que é as pessoa que precisa mais ainda, não quer escrever pra mostrar pra todo mundo: yeah, Eu vim aqui todo dia essa semana que eu estou sem comer todo dia. So... nós quisemos fazer o mais simples, mais... you know. É Só pega comida, vai pra casa. it is Ok,

VISITANDO A SEGUNDA GELADEIRA COM A FLAVIA, NÓS ENCONTRAMOS MULHERES DO BAIRRO QUE PARARAM PARA DOAR E BUSCAR COMIDA. DAÍ EU APRESENTEI A FLAVIA COMO A PESSOA QUE COMEÇOU O PROJETO DAS GELADEIRAS COMUNITÁRIAS E FLAVIA COM MUITA TIMIDEZ EXPLICOU PARA AS MULHERES PORQUE ELA CRIOU ESSE PROJETO

FLAVIA: Eu e minha família não tem papel, então nós não recebemos nenhum dinheiro do governo para ajudar. Eu vi que muitas pessoas que não têm papel a mesma coisa acontecendo. E nós falou, eu falei: e como que nós vamos comer. Ninguém está trabalhando, tem que pagar aluguel, não tem nem o dinheiro. Então, eu decidi fazer esse projetinho e.

IMIGRANTE 1 SOZINHA: Digo sim, buena idea. Pere se van rápido. Umas vezes saio unas vezes non, pero sempre hai.

MARIA: Isso ajuda muito pessoal. Foi muito bom esse projeto. Ajuda todo mundo. Isso ajuda muito.

HELO: Você mora e você mora em Somerville,

MARIA: Moro logo ali.

HELO: E há muito tempo.

MARIA: Olha que aqui eu sou uns 30 anos, nunca mudei, nunca mudei.

HELO: Seu nome…?

MARIA: Maria Gomes. Valadares, Minas Gerais.

DAÍ UMA MÃE COM DUAS CRIANÇAS TAMBÉM CHEGA

HELO: Do you speak portuguese?

CRIANÇA: No.

HELO: oh where are you from?

CRIANÇA: Somerville

A CRIANÇA MAIS VELHA TRADUZ PARA M E O QUE A FLAVIA FALOU E A MÃE ENTÃO EMOCIONADA AGRADECE

CRIANÇA: [traduz para a mãe].

IMIGRANTE 2: Muitissima graça. Mui agradecidos por todo le apoio, pois porque eu sou uma mãe solteira e quando a situação tá que nunca se alcansa comprar tudo lo que necessita. E saigo de mi trabajo e passo e ....., entonces passamos quando teremos comida que não utilizamos nosotros la traremos a cá e de pegamos o que necessitamos. Graças a oste. Seja abençoada por tudo.

HELO: Tchau, gente!

FLAVIA: Foi muito bom, ainda mais conhecer aquelas pessoas brasileira.

FLAVIA: Agora eu tenho 22 (risos) e minha mãe tinha 23 quando nós chegamos, e ela agora está com 42. Então nós estamos aqui já 19 anos sem voltar. [inserir uma pausa de 3-4 segs]

KEILA: Eu vou ser sincera. Eu nem vi esses 20 anos passar. Eu nem percebi. Não tenho tempo. Eu não tenho tempo.

[TRANSIÇÃO]

FLAVIA CONTINUA MORANDO EM SOMERVILLE E GUARDA UMA LINDA E PRECIOSA MEMÓRIA DA CIDADE

FLAVIA: Estava pensando muito nas coisas que eu gostava de fazer em Somerville, e uma coisa bem pequena, parece que é quase nada, mas que eu sempre fazia com a minha mãe, que eu lembro amando muito é, nós morava perto do Projects, que era a área e não mais mais barata. E nós andávamos sim para o Star market, que era do lado de nós, que era a grocery store. E nós comprava nossa comida. E não sei porque eles colocavam os brownies dele na geladeira naquela loja. Então eu sempre pegava. Eu gostava que era bem geladinho. Aí nós atravessava a rua, ia para Sultana, que é tudo brasileiro lá, like tudo, tudo, tudo. A minha mãe comprava todas as coisas dela que ela precisava, que era do Brasil. Eu comprava meus passatempo, que era nossa... Nossa eu Não conseguia nem passar um dia sem passatempo. Eu amava. Eu falava para meus amigos: é igual oreos, só que é melhor (risos). Aí eu pegava isso também. Aí nós andava para o Foss Park que é you know na mesma rua, todo no Broadway. E só sentava lá, só sentado, só pra relaxar um pouco do lado de fora. E eu comia o meu passatempo, e o meu brownie geladinho que eu amava! E era só isso mesmo aí. Mas eu gostava tanto, não sei. Eu não sei porque eu só gostava de... Eu era muito grudado com a minha mãe, então ela trabalhava muito, então só fazer isso, só comprar as coisas que nós precisava da casa e sentar um pouco.Eu com ela eu gostava, eu amava. Era só... Eu Só quando eu era criança, só queria ficar com a minha mãe. Então, quando terminou o trabalho, terminou a escola e era só nós duas para sentar um pouco e comer doce no parque do lado da nossa casa. Eu era que eu amava. Eu amava! Isso é like uma das minhas memórias favorita que eu tenho de Somerville.

HÁ UM ANO FLAVIA PERDEU O DACA, O DOCUMENTO TEMPORÁRIO. O MOTIVO FOI PORQUE ELA NÃO TINHA DINHEIRO PARA RENOVAR. APESAR DE SER CASADA COM UM AMERICANO, FLAVIA AINDA NÃO TEM DOCUMENTOS, PORQUE PARA TER OS DOCUMENTOS DE RESIDÊNCIA, ELA PRECISA DE ADVOGADOS. ELA E O MARIDO NÃO TEM DINHEIRO PARA PAGAR ADVOGADOS E AS TAXAS DO PROCESSO.

FLAVIA TAMBÉM VOLTOU A CURSAR A UNIVERSIDADE. KEILA TRABALHA EXTRA, CONTINUA TRABALHANDO DE DOMINGO A DOMINGO PARA AJUDAR A FILHA NO PAGAMENTO DAS MENSALIDADES, MAS A GRANA É CURTA, PORQUE É MUITO CARO VIVER E CURSAR UMA UNIVERSIDADE NOS ESTADOS UNIDOS.

EM AGOSTO DE:

[ENTRA AQUI ÁUDIO DO EVENTO EM HARVARD]

QUE IRÔNICO TUDO ISSO, NÉ!

PRA MIM FOI UMA GRANDE HONRA TER CONHECIDO A FLAVIA E A KEILA, E TER PODIDO DOCUMENTAR O PROJETO DAS GELADEIRAS COMUNITÁRIAS

AH! E ANTES DE TERMINAR ESSE EPISÓDIO EU QUERO DAR UMA LINDA NOTÍCIA

SOMERVILLE, SETEMBRO DE:

A TERCEIRA GELADEIRA COMUNITÁRIA FOI ABERTA EM SOMERVILLE!!!!

FLAVIA: É difícil organizar, mas é bem difícil manter. Tem que ter muito tempo, tem que ter muita paciência assim, muitas pessoas, muitas opiniões. Então tem que, you know. Quando você acha um time de pessoas, de pessoas na comunidade que quer suportar, ajudar, dá certo.

SIM, EU TAMBÉM ACHO QUE SE ORGANIZANDO EM COOPERAÇÃO DÁ CERTO. PORQUE AS MUDANÇAS NUNCA SÃO FEITAS POR UMA HEROÍNA SOLITÁRIA, MUITO MENOS POR UM ÚNICO FIO OU UMA LINHA. AS MUDANÇAS REAIS SÃO RESULTADOS DO ESFORÇO E TRABALHO COLETIVO. É PRECISO MUITAS LINHAS PARA SE FAZER UM TECIDO. ENTÃO, CONVERSA COM AS TUAS COLEGAS DE TRABALHO, COM OS PAIS DOS ALUNOS DA ESCOLA DO BAIRRO, COM A TUA VIZINHANÇA, DESCOBRE O QUE VOCÊS JUNTOS PODEM FAZER PARA MELHORAR A VIDA DE TODOS.

OUVINDO AS HISTÓRIAS DE FLAVIA E KEILA TAMBÉM DEU PRA PERCEBER QUE AMBAS TIVERAM SUAS INF NCIAS INTERROMPIDAS. E ISSO É TRÁGICO! A INF NCIA É UM PERÍODO LONGO EM QUE ESTAMOS INDEFESOS. E AS HUMILHAÇÕES E AGRESSÕES OUVIDAS E SENTIDAS NESSE PERÍODO FAZEM MARCAS PROFUNDAS. E A GENTE SABE QUE ESSAS OPRESSÕES E VIOLÊNCIAS NA INFANCIA ACONTECEM MUITO MAIS COM CRIANÇAS NEGRAS, POBRES E DO SEXO FEMININO. ENTÃO VAMOS PROTEGER A INF NCIA DAS POPULAÇÕES MAIS VULNERÁVEIS DESSE MUNDO.

OBRIGADA FLAVIA POR NOS DAR ESSA LIÇÃO. E TAMBÉM POR NOS ENSINAR QUE AS NOSSAS CICATRIZES NÃO NOS DEFINEM.

Esse episódio foi produzido, roteirizado e editado por mim, Heloiza Barbosa.

Assistência de roteiro de Valquiria Gouvea, Vinicius Luis e Jessica Almeida.

Design de som de Paulo Pinheiro.

Músicas originais de Paulo Pinheiro e Blue Dot Sessions.

A música tema do Faxina é de Anais Azul.

Ilustrações e animações de Natália Gregorini e Vinicius Cruz.

A mídia social fica por conta de Nick Magalhães.

A poesia no meio do episódio é de Tracy Figg @tracyfigg e foi declamada por Jazz Kaipora @kaipora_

Essa série de episódios sobre brasileiros na cidade de Somerville foi patrocinada pelo Somerville Arts Council.

E por último, se ainda não és apoiador do Faxina, por favor apoia o nosso projeto com R$10,00 reais por mês. é só ir no faxina podcast na apoia.se! e fazer a tua contribuição

agora tu podes ajudar o Faxina também falando do podcast para os amigos, amigas, amigues, vizinhança e parentes, porque de boca-em-boca o Faxina chega aos ouvidos do mundo!

Obrigada por escutar o faxina!

Até o próximo episódio! Tchau!!!

Links