No primeiro capítulo da conversa com o SGT PM AM ALLISON CARVALHO, vamos compreender a definição de insurgência criminal na Amazônia e em que aspectos ela se torna de maior complexidade no que tange ao combate e neutralização.
Saiba mais!
Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião!
No conteúdo de hoje, trago à pauta, em seu primeiro capítulo, um tema que ultrapassa fronteiras, desafia o Estado brasileiro e impacta direta e profundamente a segurança pública de nosso país. A Amazônia, além de sua importância ambiental e cultural, tornou-se palco de um fenômeno silencioso, complexo e, muitas vezes, invisível ao olhar comum: a insurgência criminal!
Grupos organizados estruturam poder territorial, econômico e social, explorando recursos naturais, dominando rotas do narcotráfico, corrompendo instituições e impondo medo às comunidades tradicionais.
Trata-se de uma nova forma de criminalidade - híbrida, transnacional, sofisticada - que combina elementos de guerrilha, crime organizado, milícias ambientais e redes internacionais de tráfico.
Escolhemos esse tema na intenção de melhor compreender o fenômeno da insurgência criminal amazônica e entender parte crucial do futuro da segurança pública brasileira. Ignorá-la é permitir que se consolide um poder paralelo incontrolável, capaz de remodelar a geopolítica daquela região.
Para nos ajudar a interpretar esse cenário, converso com o sargento da Polícia Militar do Amazonas, Alisson Carvalho, profissional com vivência direta na região e experiência no enfrentamento a essas organizações criminosas.
Sargento Alisson; na satisfação de recebê-lo, o saúdo com as boas-vindas, apresentando meus agradecimentos pela sua diligência em colaborar conosco, participando deste conteúdo! Uma honra poder contar contigo! Antes de adentrarmos nas análises das estratégias e desafios, é essencial estabelecer uma base conceitual, afinal, muitas pessoas ainda não compreendem o que diferencia essa dinâmica de criminalidade de uma facção urbana tradicional!
Por isso, para começarmos, como podemos definir essa insurgência criminal na Amazônia e em que aspectos ela se torna de maior complexidade no que tange ao combate e neutralização?
CONVIDADO:Eu que fico extremamente agradecido pelo convite para a gente debater esse problema de tão importância nacional, não só para a Amazônia, mas para todo o território, no qual há um grande escoamento do crime organizado em relação ao tráfico de drogas, mas também outros crimes interligados ao crime organizado no qual está tomando conta da Amazônia! Nós observamos aqui a maior complexidade de problemas que são relacionados à extensão territorial! Temos um grande problema: efetivo e ferramentas para que a gente consiga efetivar esse serviço policial na parte repressiva e também na parte social, que é de extrema importância para a comunidade de toda a Amazônia!
ANFITRIÃO:Quando falamos em insurgência, não estamos tratando apenas de confrontos armados, mas também do impacto direto nas populações mais vulneráveis da região. Comunidades isoladas, muitas vezes sem presença efetiva do Estado, se tornam alvos preferenciais dessas organizações.
Na prática, como essa insurgência afeta a população local? Comunidades ribeirinhas e indígenas possuem meios para se oporem a cooperar com esses grupos? Por quê?
CONVIDADO:Ao longo desses anos de experiência profissional, pudemos operar em diversos municípios do Amazonas! E observou-se que as principais vítimas de todo esse sistema corrompido são, principalmente, os ribeirinhos e os indígenas. Porém, os indígenas e os ribeirinhos também fazem isso, como uma cooptação, de forma econômica para sua família! Operações que são realizadas - principalmente no meio da calha do Rio Solimões e do Rio Negro - são pequenos grupos familiares que têm em sua posse grandes terras e, para fazer essa transposição do entorpecente de uma calha de um rio para o outro, esses riberinhos são cooptados justamente pelo grande valor que lhes é oferecido que, dificilmente, conseguiriam de uma forma legal, através de um trabalho. Como, por exemplo, a última apreensão que nós fizemos, a família eram quatro pessoas e recebeu em torno de quarenta, cinquenta mil reais para fazer a transposição de oitocentos quilos de maconha de uma calha de um grande rio para o outro! Eles aproveitam desse conhecimento da terra que esses ribeirinhos têm - e os indígenas - para que eles consigam fazer com que essa comercialização aconteça. Observa-se, também, que as terras indígenas são utilizadas para realizar grandes plantações de maconha durante as inspenções.
E como sabemos que terras indígenas se tratam de competência dos órgãos federais, a baixa do efetivo em relação à presença do governo federal nesses ambientes se torna muito propício para o crime organizado se aproveitar disso e conseguir fazer com que isso aconteça de uma forma mais livre e espontânea.
ANFITRIÃO:O senso comum enxerga a Amazônia apenas como o corredor do narcotráfico, mas a realidade é muito mais diversa e lucrativa para o crime organizado! Além do narcotráfico, o que movimenta financeiramente essas organizações criminosas na região?
CONVIDADO:Se formos verificar algumas leituras relacionadas ao crime organizado, existem trinta e dois crimes interligados na rota do tráfico de drogas, assim como produtos importados, assim como cigarro, assim como bebida, como combustível! Aqui na Amazônia temos um grande problema em relação aos garimpos, a extração de madeira, a pesca ilegal do pirarucu. Todas essas estão interligadas e são transformadas como fontes de renda para o investimento em armamentos e mais droga para o escoamento funcionar de uma forma mais eficaz! Então, o Amazonas tem suas particularidades que, pessoas nem sempre são intituladas faccionadas, mas são pessoas que dependem desse comércio. Exemplos que, para fazer uma logística dentro do estado, nessas calhas de rios que tem que percorrer diversos quilômetros de extensão de água e, outras tem que fazer de uma forma terrestre, precisa de combustível, de água, de embarcações. E a comunidade acaba sendo cooptada, pela sua grande necessidade, para fornecer isso e se transformar numa sua fonte de renda!
Isso dificulta a viabilização do serviço em relação às denúncias e também dificulta você realmente separar quem realmente trabalha diretamente com o crime organizado ou quem se aproveita dessa situação de instabilidade social para que gere renda familiar para aquelas pessoas de baixa renda.
ANFITRIÃO:A Amazônia não está isolada. Ela faz fronteira com outros países e é conectada a redes globais que vão muito além das fronteiras brasileiras. A presença do crime organizado na Amazônia tem impactos diretos na segurança pública nacional e até internacional. Que tipo de conexões esses grupos têm com redes criminosas de outros países?
CONVIDADO:O problema na Amazônia é nacional - e também internacional - por ser uma das principais rotas do tráfico de drogas utilizadas pelas facções criminosas nacionais e internacionais.
Observamos, principalmente nos municípios que são mais próximos das nossas fronteiras, são como escritórios de intercâmbio em relação aos criminosos brasileiros e os criminosos internacionais. E assim, observa-se que, a partir do momento que existe essa hibridização do crime organizado entre as duas nações, eles conseguem fazer o fortalecimento com equipamentos, com investimentos, não só com a droga, mas em relação ao material proporcionado para eles. Em diversas apreensões, os armamentos utilizados são de extrema letalidade - alto poder de fogo - e, com isso, a gente verifica que não se trata apenas de pequenas pessoas que estão sendo cooptadas, mas são realmente pessoas profissionais, pessoas ligadas diretamente a facções internacionais que tem conhecimento militar, tem conhecimento de selva. Isso dificulta em muito o problema - repressão - dentro do Estado brasileiro!
No Amazonas verifica-se que diversas apreensões já foram feitas! Conseguiram fazer essa apreensão porque o combate é muito intenso na selva! Observou-se diversos membros, por exemplo, das FARC, as Forças Revolucionárias da Colômbia! São pessoas que têm treinamento, que têm investimento, que têm um armamento e, isso, dificulta às vezes o efetivo local que tem cidades aqui que giram em torno de vinte mil habitantes, trinta mil habitantes e contam, apenas, com dois policiais para cuidar da capital, por turno, e ainda tem que fazer esse deslocamento nas comunidades para fazer esse contato! Então se torna muito inviável e muito perigoso para os policiais que estão nessa linha de frente, principalmente os locais!
ANFITRIÃO:No cotidiano do policial que atua na Amazônia, quais são os sinais mais evidentes da presença dessas facções e como isso influencia o trabalho das forças de segurança?
CONVIDADO:É latente a presença das organizações criminosas nos interiores, justamente, por verificar que principalmente a faixa etária entre os dezoito e vinte e nove anos acaba sendo vítima dessas pessoas em relação aos crimes de homicídios ligados diretamente ao tráfico de drogas! Mas, também, verifica-se através de pichações, através da cultura imposta, são municípios que, às vezes, giram a economia local em torno desse escoamento do crime organizado com entorpecentes no investimento do lazer, no investimento de moradias, no investimento de taxas em relação a bens essenciais como água, luz e aluguel! Isso tudo proporcionado pelo crime organizado! Então, verifica-se que o interior, realmente, assim como na capital - que é muito mais latente, muito mais visível - mas, nas comunidades, como são mais inacessíveis em relação à informação, em relação à busca pelo Estado para ter uma solução como recorrer sobre esse problema, acabam, por consequência, tendo que aceitar o seu risco de vida!
ANFITRIÃO:Honoráveis Ouvintes! Neste instante, faremos a primeira pausa deste conteúdo para absorver essa análise inicial, tão clara e direta, sobre o impacto cotidiano da presença das facções na Amazônia, com seus efeitos sociais, territoriais e operacionais na Região Amazônica.
Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião, convidando a audiência para, no próximo bloco, avançarmos para os desafios concretos enfrentados no terreno - infraestrutura, logística, integração entre forças de segurança e o papel crescente das tecnologias nesse enfrentamento. Acesse nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração!
Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!