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T3-4. FLOR DE KANTUTA
Episode 411th October 2022 • Faxina • Faxina Media
00:00:00 01:08:09

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Shownotes

Numa noite de insônia, Heloiza descobriu o perfil no Instagram de uma cooperativa em São Paulo de mulheres imigrantes que são costureiras. A cooperativa é chamada "Emprendedoras Sin Fronteras". Daí começou a produção de um dos episódios mais lindos sobre a força da mulher imigrante que diariamente luta para sustentar sua família e sua companheiras em um ambiente que muitas vezes é de escravização, profunda exploração e violência.

Visita o Instagram da cooperativa e compra as lindezas que elas fazem https://www.instagram.com/emprendedorassinfronteras/

Você pode comprar roupas que não são feitas por trabalho de pessoas escravizadas. Dá uma olhada nesse site: https://modalivre.org.br/

Você sabia que até hoje existe o crime brutal e hediondo de escravização de costureiras Bolivianas na cidade de São Paulo? Esse crime precisa ser denunciado e combatido. denuncie nesse site https://www.gov.br/economia/pt-br/canais_atendimento/ouvidoria/elementos/inicio/no[…]o-de-denuncias-trabalhistas-e-de-trabalho-analogo-ao-de-escravo

Voce pode denunciar casos de violência doméstica https://www.gov.br/pt-br/servicos/denunciar-e-buscar-ajuda-a-vitimas-de-violencia-contra-mulheres

CRÉDITOS. 

 Produção: Heloiza Barbosa

Roteiro: Vinicius Luis

Assistência de Roteiro: Jessica Almeida, Heloiza Barbosa, Valquiria Gouvea

Edição e Mixagem: Paulo Pinheiro

Músicas Originais: Paulo Pinheiro

Trilha sonora adicional: Blue Dot Sessions, e áudio das Chicas Manãneras

Ilustração e animação: Vinicius Cruz e Natalia Gregorini

Mídia Social: Nick Magalhães

Apoio: UFMG Radio Educativa e Podcast Garage @PRX

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Transcripts

Temporada 3 - CARTOGRAFIAS DE MIGRAÇÕES

Ep #4: Flor de Kantuta

Heloiza: ANTES DE COMEÇAR, UM AVISO DE GATILHO: ESSE EPISÓDIO FALA SOBRE ESCRAVIZAÇÃO, VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E ABUSO SEXUAL INFANTIL. SE VOCÊ É SENSÍVEL A ALGUM DESSES TEMAS, RECOMENDAMOS QUE PARE POR AQUI. CUIDAR DE SI É ESSENCIAL.

Heloiza: OI! AQUI É HELOIZA BARBOSA. E BEM VINDO AO ESPAÇO DE SONS E HISTÓRIAS DO FAXINA PODCAST.

Heloiza: DESDE A TEMPORADA PASSADA, O FAXINA PODCAST ESTÁ CONTANDO HISTÓRIAS DE IMIGRANTES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS E TAMBÉM DE IMIGRANTES QUE HOJE ESTÃO CHEGANDO NO BRASIL. NOS DOIS CASOS, EXISTEM PESSOAS QUE SAEM DE CIDADES DIFERENTES DE SEUS PAÍSES DE ORIGEM E FORMAM NOVAS COMUNIDADES ONDE SE ENCONTRAM. E POR ISSO QUE NA NOSSA NOVA TEMPORADA NÓS ESTAMOS TRAÇANDO UMA CARTOGRAFIA DE MIGRAÇÕES. NO EPISÓDIO DE HOJE NÓS VAMOS ADICIONAR OUTRAS CIDADES AO NOSSO MAPA

MAS ANTES DEIXA EU TE CONTAR QUE A GENTE, DA EQUIPE DO FAXINA, TINHA PENSADO PRA ESSA TEMPORADA FAZER SOMENTE 3 EPISÓDIOS CONTANDO HISTÓRIAS DE IMIGRANTES NO BRASIL. MAS UM DIA, NUMA MADRUGADA DE INSÔNIA, EU DESCOBRI O PERFIL NO INSTAGRAM DE UMA COOPERATIVA DE MULHERES BOLIVIANAS EM SÃO PAULO CHAMADA “EMPREENDEDORAS SIN FRONTERAS”.

FIQUEI TÃO EMOCIONADA EM SABER DA EXISTÊNCIA DESSA COOPERATIVA DE MULHERES IMIGRANTES QUE IMEDIATAMENTE COMECEI A SEGUIR O PERFIL E MANDEI MENSAGEM. E PRA MINHA SURPRESA LOGO VEIO UMA RESPOSTA.

E AÍ…NO VAI E VEM DE MENSAGENS, EU DESCOBRI QUE A COOPERATIVA EMPREENDEDORAS SIN FRONTERAS É FEITA DE IMIGRANTES QUE TRABALHAM COM COSTURA. OU SEJA UMA COOPERATIVA DE COSTUREIRAS. NO DIA SEGUINTE EU COMECEI A CONVENCER A EQUIPE DO FAXINA A PRODUZIR MAIS UM EPISÓDIO NO BRASIL. E TAMBÉM CONVIDEI O Vinicius LUIZ PARA IR ATÉ SÃO PAULO ENTREVISTAR ESSAS MULHERES QUE FIZERAM DO BRASIL A SUA CASA. ELE TOPOU! OI Vinicius!

Vinicius: OI HELÔ! EU VOU TE MOSTRAR ALGUNS ÁUDIOS E VOCÊ TENTA ADIVINHAR ONDE EU FUI PARAR PRA ESSA HISTÓRIA, PODE SER?

Heloiza: HMMM….OK VAMO NESSA!

*Som Ambiente* com fade out no final

Heloiza: ESSE SOM ME REMETE A UM DESFILE, UMA PARADA.

Vinicius: DE FATO, É UMA PARADA. VAMOS OUVIR UM POUCO MAIS.

*Som Ambiente* Vinicius: Agora tá passando um grupo folclórico dançando. E uma dança que parece muito com danças gaúchas, inclusive os homens tão muito caracterizados com bombachas e chapéus que lembram muito os gaúchos aqui do Brasil.

Heloiza: IHH… FIQUEI NA DÚVIDA. É UM DESFILE DE CARNAVAL FORA DE ÉPOCA EM SÃO PAULO?

Vinicius: PROMETO QUE A ÚLTIMA DICA VAI REVELAR TUDO!

de agosto de:

Heloiza: AAAAH É UM DESFILE SOBRE A BOLÍVIA!!!! MAS COMO ASSIM? TU FOSTES PARAR EM UMA PARADA DE COMEMORAÇÃO À BOLÍVIA?

Vinicius: ENTÃO, POR SORTE EU ESTAVA EM SÃO PAULO, NO DIA DA INDEPENDÊNCIA DA BOLÍVIA. E EU QUERIA MUITO VER A FESTA DE COMEMORAÇÃO, COMER AS SALTEÑAS, QUE É UMA COMIDA DELICIOSA E CONVERSAR COM AS PESSOAS. E A COMUNIDADE BOLIVIANA FAZ UMA FESTA GRANDIOSA, COM VÁRIOS GRUPOS FOLCLÓRICOS, COMIDAS, ROUPAS.

HELÔ 4: VOCÊ FALA EM UMA FESTA GRANDIOSA. QUAL É O TAMANHO DESSA COMUNIDADE BOLIVIANA EM SÃO PAULO?

I E OS ÚLTIMOS DADOS SÃO DE:

Heloiza: NOSSA, É REALMENTE MUITA GENTE! É QUASE UMA CIDADE BOLIVIANA DENTRO DE SÃO PAULO!

Vinicius: SIM! E É TÃO GRANDE QUE EXISTE ATÉ UMA PRAÇA NO BAIRRO DA LUZ EM SÃO PAULO CHAMADA KANTUTA, QUE É UMA HOMENAGEM AOS IMIGRANTES BOLIVIANOS .

MAS HELO, EU TENHO UMA OUTRA PERGUNTA PRA VOCÊ. QUANDO A GENTE FALA DE COMUNIDADE BOLIVIANA EM SÃO PAULO QUAL A IMAGEM QUE VEM NA CABEÇA LOGO DE CARA?

Heloiza: HUMMM PRA MIM É A IDEIA DE MUITAS MULHERES, COSTUREIRAS TRABALHANDO DIA E NOITE EM FABRIQUETAS FEITAS DE IMPROVISO ESPALHADAS POR SÃO PAULO. POR ISSO EU FIQUEI MUITO INTRIGADA COM ESSA COOPERATIVA DE COSTUREIRAS.

Vinicius: ESSA É A MINHA TAMBÉM. MAS AQUI NO FAXINA A GENTE QUER IR ALÉM DAS IMAGENS QUE TODO MUNDO TEM NA CABEÇA E LEVANTAR O TAPETE DAS HISTÓRIAS QUE NINGUÉM VÊ, SABE, E OUVE, NÃO É MESMO?

POR ISSO, AGORA EU VOU TRAZER AQUI AS HISTÓRIAS DAS IMIGRANTES BOLIVIANAS QUE SÃO AS EMPRENDEDORAS SIN FRONTERAS EM UM EPISÓDIO CHAMADO “FLOR DE KANTUTA”

[TRANSIÇÃO PARA O INÍCIO DA HISTÓRIA]

*** sons da festa***

Florência: Não gravou?

Vinicius: Não gravou.

Florência: Tudo de novo?

Vinicius: Tudo de novo.

Florência: Ai meu Dios.

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Vinicius: NO DIA DA INDEPENDÊNCIA DA BOLÍVIA, EU FUI À FESTA PARA ENCONTRAR COM A CHOLITA FLORENCIA. QUANDO EU AVISTEI ELA, SAÍ CORRENDO E, NA CONFUSÃO, ESQUECI DE APERTAR O REC NO GRAVADOR.

Heloiza: MAS PERA AÍ, CHOLITA ESSE É O NOME DA PESSOA? O QUE É CHOLITA?

Vinicius: VAMOS POR PARTES, ESSA PESSOA QUE EU FUI ENCONTRAR SE CHAMA REMBERTO SUAREZ.

Florencia: Eu me chamo Remberto Suarez Roca, tenho trinta e cinco ano. Eu venho de… da cidade de Trindade, do Amazonas, que fica na Bolívia, tá? E moro faz oito anos aqui em São Paulo, capital.

Vinicius: ELE SE APRESENTA COMO DRAG QUEEN E A PERSONAGEM SE CHAMA FLORENCIA, QUE É UMA CHOLITA, DAÍ CHOLITA FLORENCIA.

Heloiza: EU AINDA NÃO SEI O QUE É UMA CHOLITA…

Florencia: Cholita são as mulheres indígenas dos Andes né? Que tem tanto tem no Peru, no Equador, no Bolívia, norte de Chile, noroeste argentino tem.

Vinicius: ELAS TÊM UMA VISUAL BEM CARACTERÍSTICO.

Florencia: Ai, eu estou com o chapéu, estou com uma trança longa, um chapéu preto, estou com a bandeirinha aqui da Bolívia porque hoje é dia da pátria da Bolívia, a bandeira LGBTQIA+, a whipala [Vinicius: A WHIPALA É AQUELA BANDEIRINHA QUADRICULADA EM VÁRIAS CORES, QUE REPRESENTA OS POVOS INDÍGENAS E É CONSIDERADA A SEGUNDA BANDEIRA DA BOLÍVIA]

e a minha trança longa com pomponzinho amarelo no final, minha blusa colorida, tá? Tem as cores vermelho, azul, verde, laranja, rosa e o sapato é dourado com rosa e tem minha lhama de fantoche aqui no ombro né? De pelúcia, que chama atenção e todo mundo tá olhando e vindo tirar foto (risos).

Vinicius: POR MUITO TEMPO, AS CHOLITAS FORAM DISCRIMINADAS NA BOLÍVIA, MAS HOJE PASSARAM A SER RECONHECIDAS COMO EXEMPLO DA FORÇA DA MULHER ANDINA.

Heloiza: E VOCÊ CONHECEU A CHOLITA NA FESTA?

Vinicius: NA VERDADE, EU FUI A SÃO PAULO PARA CONHECER A COOPERATIVA DAS EMPREENDEDORAS SEM FRONTEIRAS, MAS AÍ DESCOBRI QUE TERIA UMA FESTA DA INDEPENDÊNCIA DA BOLÍVIA E NA PROGRAMAÇÃO TINHA UMA DRAG QUEEN. EU PRECISAVA FALAR COM ELA!

Heloiza: É BEM CURIOSO ISSO DE UMA DRAG QUEEN VESTIDA COM ROUPAS TÍPICAS DA BOLÍVIA. ISSO É ALGO COMUM? COMO QUE É A RECEPÇÃO DAS PESSOAS?

Vinicius: ENTÃO, HELÔ. O REMBERTO ME FALOU QUE NÃO É ALGO COMUM, QUE A CULTURA BOLIVIANA É BEM MACHISTA. MAS QUE A FLORENCIA É BEM RECEBIDA PELO PÚBLICO.

Florencia: Porque eu me identifico como se eu fosse um palhaço com salto, né? E o que eu estou usando, eu estou usando algo que é de nossas raízes, e estou usando uma roupa que a mãe dele, com a que ele foram criados-- estou falando sobre os homens, porque as mulheres adoram.

Vinicius: A FLORENCIA SEMPRE ESTÁ COM UMA LHAMA DE PELÚCIA NOS OMBROS, O QUE CHAMA MUITA ATENÇÃO E ATRAI O INTERESSE DAS CRIANÇAS.

Heloiza: ENTÃO, ELA É UM SUCESSO!

Vinicius: SIM, NO DIA DO DESFILE, TINHA MUITA GENTE TIRANDO FOTOS COM ELA. MAS ATÉ O REMBERTO SE TORNAR ESSA REFERÊNCIA PRA COMUNIDADE BOLIVIANA EM SÃO PAULO, ELE PASSOU POR MUITA COISA.

Florencia: Então… a imigração na minha família começou por meio da minha mãe, que separou do meu pai, né?, que ela eh sofria violência doméstica no ano noventa e cinco. Nós somos em quatro irmãos, eu sou terceiro, né? E minha mãe decidiu emigrar para o ano sair dessa Argentina, no ano noventa e cinco.

R QUE A ARGENTINA. ENTÃO, EM:

Florencia4: Trabalhava de sete da manhã a onze da noite, ganhava quinhentos reais…

Heloiza: ESPERA! ELE GANHAVA 500 REAIS POR SEMANA?

Vinicius: INFELIZMENTE, NÃO. ELE GANHAVA 500 REAIS POR MÊS!!! TRABALHANDO 16 HORAS POR DIA E TODOS OS DIAS. SEM UMA FOLGA. NADA!

Florencia: …eu realmente sabia que eu ia ser escravo. Porque se não aceitava aquilo, que outra coisa me esperava? Eu não falava português, não tinha RG, não tinha CPF, não tinha carteira de trabalho. Então, onde eu vou chegar, onde? Quem me vai aceitar?

Vinicius: ESSA FALA DO REMBERTO FICOU REVERBERANDO POR DIAS NA MINHA CABEÇA, DE SABER QUE IA SER ESCRAVIZADO, DE ACEITAR ESSA CONDIÇÃO. EM MUITOS MOMENTOS, EU FIQUEI COM A SENSAÇÃO DE QUE ESSA EXPLORAÇÃO É COMO UM PEDÁGIO PARA A MAIORIA DOS BOLIVIANOS QUE VÊM PRO BRASIL. MAS DE FORMA ALGUMA DÁ PRA CONSIDERAR QUE A PESSOA ESCRAVIZADA ESCOLHEU ESSA CONDIÇÃO.

Heloiza: E A GENTE PRECISA REFORÇAR QUE NINGUÉM MERECE PASSAR PELA SITUAÇÃO DE SER ESCRAVIZADO, NÃO IMPORTA A ORIGEM NEM AS CONDIÇÕES FINANCEIRAS DESSA PESSOA. TODA PESSOA QUE TRABALHA DEVE RECEBER SALÁRIO E TRABALHAR COM DIGNIDADE.

LOGO À ESCRAVIDÃO AINDA EM:

Florencia: Não recebi, eu fiz protesto, oxe (risos). Eu fiz protesto, falei, né? Aí eu peguei uma panela e batia “pagamento, pagamento, pagamento”! A mulher ficou doida, “chama a polícia, chama a polícia”! “Não, eu não vou parar até eu recibir meu pagamento”, porque não era só eu, era de meus conterrâneo.

E CAEM NESSA HISTÓRIA. DESDE:

Vinicius: O REMBERTO PASSOU POR OUTROS TRABALHOS, QUE TAMBÉM NÃO ERAM LEGAIS. ATÉ QUE

Florencia: Fui na Parada Gay, conheci lá o senhor, um brasileiro, tal ,com meus amigos que vieram de Buenos Aires pra parada. Aí conheci, conhecemos ele, entendeu? Ele é um drag queen, aí a gente falou que era boliviano, ele viu a bandeira da Bolívia, que tava no meu amigo, nas costas, no ombro. E ele aí ela me indicou para a fábrica de peruca.

Vinicius: E FOI NA FÁBRICA DE PERUCAS QUE REMBERTO COMEÇOU A INVESTIR NA CARREIRA DE DRAG QUEEN.

rasil e Beautiful todos anos,:

Heloiza: FICO MUITO FELIZ QUE O REMBERTO TENHA ENCONTRADO NA FLORENCIA UMA FORMA DE MOSTRAR A CULTURA DA BOLÍVIA PARA OS BRASILEIROS.

Vinicius: SIM! ELE USA A FLORENCIA PRA CHAMAR ATENÇÃO PARA OS DIREITOS DOS IMIGRANTES. ESSA É UMA DAS TRÊS CAUSAS QUE ELE DEFENDE.

Florencia: Minhas causas são essas: direito de imigrante, meus direitos de LGBT e direito à moradia digna!

Vinicius: EU NÃO TINHA CONTADO, MAS O REMBERTO VIVE EM UMA OCUPAÇÃO EM MAUÁ, NA GRANDE SÃO PAULO, E TAMBÉM É ENGAJADO NOS MOVIMENTOS POR MORADIA.

** PAUSA**

Heloiza: AGORA, VINICIUS, COMO VOCÊ MESMO FALOU, O INÍCIO DA HISTÓRIA DO REMBERTO É MUITO SEMELHANTE AO QUE OUTROS IMIGRANTES BOLIVIANOS PASSAM AQUI NO BRASIL. NÃO É?

Vinicius: POIS É. EXISTEM ESSAS SEMELHANÇAS QUE SÃO HORRÍVEIS. MAS CADA PESSOA TEM SUA PRÓPRIA HISTÓRIA, NÉ. ENTÃO, EU CONVERSEI COM CINCO MULHERES QUE FAZEM PARTE DO GRUPO EMPRENDEDORAS SIN FRONTERAS, QUE É A COOPERATIVA DE COSTUREIRAS QUE EU FUI CONHECER EM SÃO PAULO.

A COOPERATIVA FUNCIONA NA CASA DO POVO, QUE É UM ESPAÇO FUNDADO PELA COMUNIDADE JUDAICA NA CIDADE.

*Som Ambiente *:

Prazer, sou o Vinicius

Eu sou a Beti.

Yenny.

Zulema.

Não entendi?

Zulema.

Vinicius: ALÉM DA BETI, YENNY, E ZULEMA, TEM TAMBÉM A SONIA E A JESSICA.

Heloiza: A COOPERATIVA É FORMADA POR ELAS CINCO?

Vinicius: NÃO, NA VERDADE SÃO 15 MULHERES.

Heloiza: UAU!

Vinicius: NÓS VAMOS COMEÇAR CONTANDO COMO ELAS CHEGARAM AQUI E DEPOIS COMO SE ENCONTRARAM PARA FORMAR A COOPERATIVA.

Zulema: Meu nome é Zulema Calizaya Choque, sou de Oruro.

Vinicius: A ZULEMA TÁ AQUI NO BRASIL HÁ 20 ANOS.

Zulema: Lá na Bolívia eles te falam maravilhas do exterior. “Você vai ganhar duzentos dólares!” “Uau!”, eu falei, “Nossa, eu vou ganhar tanto dinheiro… não, eu vou”. Você fecha os olhos, não vê o que vai acontecer no futuro. Às vezes é isso, a pobreza... Bom venho de una família humilde e pobre, não vou dizer que sou--. Aí, eu vim… “nossa, duzentos dólares ninguém ganha! Eu vou, eu vou…”. Aí eu peguei a minha filha, né? Na época, eu tinha marido, os três, passamos a fronteira por lado de Foz do Iguaçu, por Paraguai. A gente veio, assim, ilegal, porque não não tínhamos documento, não sabíamos como passar. Então, foi um viaje longo, muito cansativo. A gente passou a fronteira, passou de moto, bem… tipo, com medo, porque você não sabe onde que você vai chegar.

Vinicius: DEPOIS DE PASSAR DA FRONTEIRA DE MOTO, A ZULEMA PEGOU UM ÔNIBUS CLANDESTINO COM O MARIDO E A FILHA EM DIREÇÃO A SÃO PAULO, CAPITAL. A CUNHADA, QUE JÁ MORAVA LÁ, DEU AS INSTRUÇÕES SOBRE COMO CHEGAR.

Zulema: Ele falou, tipo, pelo telefone, “anota assim:”, ele deletreou-- soletrou as palavras pra mim, o bairro. Agora, eu sei como falar o bairro, foi na época, Rodrigo de Barros, aqui perto da Luz. Aí minha cunhada falou: “eu vou ficar na porta te esperando” e o bus que trouxe nós jogou, praticamente, do bus.

Vinicius: ELA DEVERIA TER DESCIDO NA RUA DOUTOR RODRIGO DE BARROS, NO BAIRRO DA LUZ, EM SÃO PAULO, MAS O ÔNIBUS DEIXOU A FAMÍLIA EM DIADEMA, CERCA DE 25 QUILÔMETROS LONGE DO ENDEREÇO. NO MEIO DE TUDO, ELA CONSEGUIU IDENTIFICAR A PALAVRA TAXI E MOSTROU O ENDEREÇO PARA O MOTORISTA.

Zulema: Na época, não tinha GPS, nada (risos). Vinte anos atrás. Ele pegou um livro desse grosso. Ele foi, procurou o bairro. Ele falou: “sessenta dólares”. Nossa! Sessenta dólares. Nós tínhamos, estávamos com trinta dólares. Aí, eu falei mas endereço… não sabemos o endereço, não sabemos como falar, com mímica e tudo. A gente subiu chegou, eu, mi marido--, subimos no no táxi. Ainda bem, ele deixou no endereço, minha cunhada estava na porta, chegamos. Ela nos emprestou dinheiro pra pagar, pagamos.

Vinicius: VOCÊ JÁ DEVE IMAGINAR QUE JAMAIS UMA VIAGEM ENTRE DIADEMA E O BAIRRO DA LUZ CUSTARIA 60 DÓLARES. EU FIZ O CÁLCULO EM UM APLICATIVO DE TRANSPORTE DE QUANTO FICARIA HOJE A CORRIDA ENTRE O TERMINAL DE DIADEMA E A RUA RODRIGO DE BARROS E O VALOR DEU 80, NÃO 80 DÓLARES, 80 REAIS. ESSE FOI O PRIMEIRO GOLPE QUE A ZULEMA SOFREU AO CHEGAR AQUI. A CUNHADA, QUE JÁ ESTAVA BEM ESTABELECIDA, LEVOU ELA PARA TRABALHAR NUMA FÁBRICA DE COSTURA. E O VALOR DO SALÁRIO NÃO ERA DE DUZENTOS DÓLARES.

Zulema: Na época as prendas-- quando eu cheguei, as prendas, eles te pagavam vinte centavos, trinta centavos… a maior era quarenta centavos. Então era tipo… é… tipo, eu falei “nossa, pra tomar uma Coca-Cola eu tenho que fazer, tipo, cinco peças?”. Porque a Coca-Cola na época estava R$ 1,20, acho.

Vinicius: ELA MORAVA NO MESMO LUGAR EM QUE TRABALHAVA. ERAM TRÊS QUARTOS: UM SÓ PARA HOMENS E DOIS PARA CASAIS, ELA FICAVA NUM DESSES. ALÉM DISSO, TINHA UMA SALA MAIOR, ONDE AS PESSOAS FAZIAM AS PEÇAS.

Zulema: O quarto que eles nos deram era um quarto pequeno, onde cabia certinho uma cama de casal e um cômodo pra colocar… pra colocar um armário, né..Um armário pra colocar só as roupas e uma TV, só.

Vinicius: COMO ELA NÃO SE ADAPTOU BEM COM A COSTURA ELA FOI TRANSFERIDA PARA A COZINHA DA FÁBRICA, QUE PAGAVA MENOS AINDA. E PRA COMPLETAR, ELA PRECISAVA LIDAR COM OS ABUSOS DA EMPREGADORA, QUE TAMBÉM ERA BOLIVIANA.

Zulema: Aí eu ficava chorando pra meu marido: “não, você me trouxe aqui, olha o trato deles!”. Ela vinha, puxava a porta, falava “oh, é hora de trabalho!”, seis horas da manhã. Ela não permitia que a criança entre no taller da oficina da costura.

Vinicius: Vocês moravam no mesmo lugar?

Zulema: É. No mesmo lugar. E minha filha ficava chorando… aí fiquei extrañando, aí eu falei eu vou embora.

Vinicius: EM ESPANHOL, EXTRAÑAR É SENTIR FALTA, SENTIR SAUDADES.

Zulema: Aí eu chorei pra meu marido “quero ir embora, não quero ficar mais aqui”. Aí, um dia, minha irmã falou: “fica, porque tem que-- tem conta pra pagar”. Porque na época eles descontaram no passagem, ficaram com nossos documentos… também falaram: “ah se você vai na rua, você vê o polícia, ele vai te pegar”.

Heloiza: ISSO A MESMA COISA QUE FALARAM PRO REMBERTO!

Vinicius: A MESMA COISA! E ESSE CASO DA ZULEMA PARECE MUITO COM A HISTÓRIA DE OUTRA INTEGRANTE DA COOPERATIVA, QUE PEDIU PRA SER IDENTIFICADA COMO JESSICA.

Heloiza: VINICIUS, ANTES DE VOCÊ FALAR DA JESSICA, EU QUERO ENTENDER MELHOR ESSA SITUAÇÃO DA ZULEMA. ELA FALA QUE TEVE OS DOCUMENTOS RETIDOS PELOS PATRÕES, TEM ESSAS DENÚNCIAS DE ASSÉDIO MORAL, LOCAL INSALUBRE DE TRABALHO E UM SALÁRIO MUITO BAIXO. A GENTE TÁ FALANDO DE ESCRAVIZAÇÃO NESSE CASO TAMBÉM.

Vinicius: É VERDADE, HELOIZA. SEGUNDO O MINISTÉRIO DO TRABALHO, ENTRE OUTRAS IRREGULARIDADES, AS SEGUINTES SITUAÇÕES SÃO CONSIDERADAS TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO: QUANDO A PESSOA É SUBMETIDA À VIGIL NCIA OSTENSIVA NO LOCAL DE TRABALHO POR PARTE DO EMPREGADOR; POSSE DE DOCUMENTOS OU OBJETOS PESSOAIS DO TRABALHADOR; JORNADAS EXAUSTIVAS DE TRABALHO TAMBÉM CONTAM COMO TRABALHO ESCRAVO. A ZULEMA ME CONTOU QUE ELES TRABALHAVAM DE SEIS DA MANHÃ ATÉ ONZE DA NOITE.

Heloiza: QUE TRISTEZA IMENSA VIVER COM MEDO, VIVER SEM DIGNIDADE, VIVER SEM LIBERDADE… MAS VINICIUS, VOCÊ IA FALAR DA JESSICA, E AI?

Jessica: Eu sou de La Paz. De La Paz, sabe??? De La Paaaz (muitos risos).

ANOS, EM:

Jessica: Eles falavam que iam pagar cem dólares pra mim. (Hum). E eu falava “nossa, eu vou ganhar cem dólares num mês! Imagina juntar doze meses de cem dólares”. Está bom. Pelo menos dez meses. O resto é para comprar algumas coisas, tipo, é… coisas que você vai usar né? Aí eu falava “dez mil, mil dólares… nossa”, e eu falava “vou ter dinheiro, né?”. Uno fica assim… pensando que vai ganhar mais dinheiro ainda.

Vinicius: É UM POUCO DE INGENUIDADE DA JESSICA PENSAR QUE CONSEGUIRIA JUNTAR TODOS OS SALÁRIOS QUE RECEBESSE AQUI. COMO ELA SABIA COSTURAR DESDE LA PAZ, ELA OPERAVA MÁQUINAS INDUSTRIAIS E ERA MUITO REQUISITADA PELA CHEFE, UMA BOLIVIANA TAMBÉM. MAS ELA ERA IMPEDIDA DE SAIR.

Jessica: Eu vim pra cá, quando eu vinha num grupo de pessoas, e eu fiquei trancada três anos. Tipo, como ela falou, tem pessoa boliviana, que escraviza bolivianos. Então, eu fiquei três anos trancada. Não saía para a rua, não sabia falar português.

Vinicius: ELA ACORDAVA, TRABALHAVA, COMIA E DORMIA NO MESMO LUGAR. ATÉ QUE UM DIA, DECIDIU QUE NÃO DAVA MAIS.

Jessica: E eu queria sair né? Ela não deixava e aí foi isso que aconteceu. Aí ela ficou muito brava. Ela falou que eu era menor de idade. Que não poderia fazer o que quisesse aqui. Aí ela quis… levantou a mão, né? Para me dar um soco. Aí eu fiquei muito com raiva. E eu falei assim, minha mãe batia e outra vai bater? Eu não vou deixar! Eu falei: “então, vou sair de qualquer jeito”.

Vinicius: COM 21 ANOS E SEM CONHECER NADA DA CIDADE DE SÃO PAULO E SEM FALAR PORTUGUÊS, JESSICA JUNTOU AS POUCAS COISAS QUE TINHA, UM BOCADO DE CORAGEM E FUGIU.

Jessica: Eu cheguei aqui, fiquei trancada três anos, despues fugi, não sabia se ia dormir na rua… fiquei, assim, desesperada. Despues encontrei outro boliviano, aí falou que ia arrumar um lugar pra mim, aí eu fiquei.

Vinicius: SÓ QUE EM VEZ DE SOLUÇÃO, ELA ACHOU OUTRO PROBLEMA...

Jessica: Mesmo aí, também eu fui explorada. Eles não me pagavam… eu ficava triste, né. Cobrava todo mês, “me paga, me paga, me paga, por favor”. Aí eles não pagavam pra mim.

Vinicius: ELES PROMETERAM PAGAR 100 REAIS POR MÊS PRA ELA, NUMA ÉPOCA EM QUE O SALÁRIO MÍNIMO ERA 260 REAIS. MAS TAMBÉM FICOU SÓ NA PROMESSA.

COMO ELA OUVIA MUITO RÁDIO, APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS E CONSEGUIU ACIONAR UM ADVOGADO PRA RECEBER O PAGAMENTO.

Heloiza: É UM FATO MUITO DOLOROSO DE COMO OS RECÉM IMIGRANTES EM UMA CIDADE SÃO VULNERÁVEIS A EXPLORAÇÃO, E ÀS VEZES SÃO EXPLORADOS PELOS SEUS PRÓPRIOS CONTERR NEOS.

MAS Vinicius, VOCÊ SABE QUE EU TAMBÉM APRENDI INGLÊS OUVINDO RÁDIO…

Vinicius: LEGAL DEMAIS. ELA ME FALOU QUE ADORAVA OUVIR MÚSICA DO RAÇA NEGRA.

MAS VOLTANDO A HISTÓRIA DA JESSICA, O ADVOGADO COBROU 30% DO VALOR QUE ELA PEDIU NA JUSTIÇA. O PATRÃO CONCORDOU EM REALIZAR O PAGAMENTO E DEU VÁRIOS CHEQUES PRA ELA.

Jessica: Aí como ele me deu cheques, aí, eu tinha que pedir pra outra pessoa que tivesse conta pra trocar os cheques. Quando aí eu fui a trocar os cheques da pessoa, ela fala “tudo bem, eu vou cobrar dez por cento… por cada cheque, que eu vou cobrar”. E eu falei tudo bem, dei um monte de cheques.

Heloiza: MAS Vinicius, PRA QUEM ELA DEU ESSES CHEQUES?

Vinicius: ELA DEU PARA UM CONHECIDO PORQUE COMO ELA NÃO TINHA DOCUMENTOS NO BRASIL E NÃO TINHA CONTA, ALGUÉM PRECISAVA DESCONTAR ESSES CHEQUES PRA ELA. E ESSA PESSOA DEPOS ITOU OS CHEQUES, SÓ QUE… SÓ QUE ESSE CONHECIDO TINHA COMPRADO UMA CASA E O DINHEIRO FOI DESCONTADO PARA PAGAR AS PRESTAÇÕES.

Jessica: Nossa… e eu falei “eu não acredito… não acredito que tenho que passar tantas coisas para de novo acontecer!”.

Heloiza: EU TAMBÉM NÃO ACREDITO!

Vinicius: NO FIM, ELA CONSEGUIU REAVER PARTE DO DINHEIRO. NÃO TODO.

Heloiza: EU ESTOU IMPRESSIONADA EM COMO AS HISTÓRIAS DE EXPLORAÇÃO SE REPETEM. O REMBERTO, A ZULEMA E A JESSICA PASSARAM POR SITUAÇÕES MUITO PARECIDAS. NÃO É POSSÍVEL QUE NINGUÉM FAÇA NADA. É INACEITÁVEL!!!

Vinicius: POIS É, HELÔ. EU FIQUEI MUITO TOCADO COM A HISTÓRIA DA JESSICA, PORQUE QUANDO CHEGUEI PARA CONVERSAR COM ELAS PELA PRIMEIRA VEZ, PENSEI QUE A CONVERSA SERIA MAIS TRANQUILA, QUE ELAS SÓ FALARIAM DESSAS HISTÓRIAS MAIS SENSÍVEIS DEPOIS. MAS FOI A PRIMEIRA COISA QUE A JESSICA ME CONTOU. É ALGO QUE MARCOU MUITO PROFUNDAMENTE A VIDA DELA. E NÃO É PRA MENOS.

A ANTIGO. TEM UMA NOTÍCIA DE:

NA ÉPOCA FOI CRIADA UMA COMISSÃO COM REPRESENTANTES DOS DOIS PAÍSES PARA TENTAR RESOLVER ESSA SITUAÇÃO. MAS TUDO INDICA QUE ESSA EXPLORAÇÃO CONTINUA ACONTECENDO. A AGÊNCIA DE DADOS FIQUEM SABENDO FEZ UM PEDIDO DE INFORMAÇÃO PRO MINISTÉRIO DA ECONOMIA ANO PASSADO E DESCOBRIU QUE 860 ESTRANGEIROS FORAM RESGATADOS DE CONDIÇÕES DE TRABALHO ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS.

E A MAIORIA DOS RESGATADOS, 405 PESSOAS, ERAM BOLIVIANOS.

ONTRAR MATÉRIAS DESSE ANO DE:

Heloiza: EU FICO PENSANDO QUEM…QUEM SE BENEFICIA DA EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DESSAS COSTUREIRAS IMIGRANTES? O QUE JUSTIFICA SUBMETER PESSOAS VIVER EM CONDIÇÕES DESUMANAS… PRA QUE? PRA TER UMA ROUPA BARATA? TENHA CERTEZA QUE ALGUÉM ESTÁ PAGANDO UM PREÇO MUITO CARO POR ESSE “BARATO” ENTRE ASPAS.

MAS E AÍ, O QUE ACONTECEU COM A JESSICA?

Vinicius: DEPOIS DISSO, A JESSICA FOI PARA OUTRA ÁREA DA PRODUÇÃO DE ROUPAS. ELA PASSOU A TRABALHAR PARA A EMPRESA DE UM CHINÊS, COMO EMPACOTADEIRA. DESTA VEZ NÃO TEVE GOLPE E ELA RECEBIA O SALÁRIO CERTINHO. AÍ UM DIA FALARAM QUE ESTAVAM PRECISANDO DE MAIS PESSOAS. ELA PEGOU O TELEFONE E LIGOU PARA O IRMÃO, QUE AINDA MORAVA NA BOLÍVIA E TOPOU SE MUDAR PARA O BRASIL.

E JUNTO COM O IRMÃO DA JESSICA, VEIO A ESPOSA DELE, YENNY.

asil há uns… eu cheguei em:

Vinicius: YENNY E O MARIDO FORAM TRABALHAR NO MESMO LUGAR QUE A CUNHADA JESSICA.

Yenny: A gente trabalhou com os chinês, né? E… era embalar roupa, eles pagavam bem, sim. Só que o trabalho era de noite, não era de dia, né? Toda noite você trabalhava, de dia você descansava. Só que era una, una temporada só, não era o tempo todo, ou sea, uns dois, três meses, não sei, Aconteceu alguma coisa, mas fechou. Aí fiquei grávida da minha filha, né? E aí eh minha cunhada falou, “e agora? Você não vai poder trabalhar”.

REAIS, ISSO LÁ EM:

Yenny: Eu ia ter minha filha especial, quando ela nasceu, já era um ano já, que eu tinha passado. Aí eu não consegui mais trabalhar, porque eu tinha que ir no médico, levar minha… filha minha filha ficou internada de dez dias, eu não sabia o que fazer, assim, né. Só meu marido que trabalhava.

Vinicius: A YENNY NUNCA RECEBEU UM DIAGNÓSTICO SOBRE QUAL DEFICIÊNCIA A FILHA TEM. A CRIANÇA TEM 11 ANOS HOJE.

Yenny: Ela não fala, no caminha, ela usa fralda… tem que pegar no colo… é, é difícil.

Vinicius: Aí você tem que ficar o dia inteiro com ela.

Yenny: É, tem que ficar, às vezes… Ela é grande, né, às vezes tenho que levar e é muito difícil…

Vinicius: A YENNY ME CONTOU QUE A RESPONSABILIDADE DE CUIDAR DA FILHA FICAVA QUASE TODA COM ELA, ENQUANTO O MARIDO TRABALHAVA.

Yenny: Mas meu marido bebia também… mas às vezes ele, tipo, queria me bater assim, né? Mas eu lembrava do meu pai, eu tive meu padastro, que eu batia na minha mãe também, que bebia. Mas aí… quando o meu marido levantava a mão, nossa, eu lembrava disso e eu pulava em cima dele. Nossa, eu não, não o deixava. Sempre falava assim, “o marido tem força, vai me bater, mas eu não vou ficar quieta, não, eu vou dar nele também, ele vai ficar ferido também”.

VERAM VOLTAR PRA BOLÍVIA, EM:

Yenny: Mas lá na Bolívia eu falei: “eu quero fazer o tratamento, fazer fisioterap-- ela pode caminhar?”, eu perguntei. “Pode caminhar? Pode caminhar, ela?” E a médica me falou: “o que você está achando, que ela vai ser normal? Ela vai ser assim, como você está vendo, vai ser assim, ela nunca vai ser normal”. Mas eu sei que ela não vai ser normal… mas eu me senti assim, tipo… eu não senti esse apoio, assim. Né? Eu sei que ele é deficiente, eu sei que ele é uma criança especial. Então, eu não gostei muito, não gostei nada do que aconteceu lá na Bolívia.

Heloiza: NOSSA, EU SINTO MUITO QUE A YENNY E A FILHA TENHAM PASSADO POR ISSO. FOI DEPOIS DESSA SITUAÇÃO QUE ELA DECIDIU VOLTAR PRO BRASIL?

NA BOLÍVIA E VEIO PRA CÁ EM:

Heloiza: AH, ENTÃO COMEÇO A IMAGINAR QUE FOI ASSIM QUE ELA CONHECEU A COOPERATIVA?

Vinicius: É POR AÍ, HELÔ. MAS EU OUVI MAIS HISTÓRIAS DAS INTEGRANTES DA COOPERATIVA QUE EU QUERIA DIVIDIR COM VOCÊ.

Heloiza: MAS ANTES VAMOS FAZER UMA PAUSA. FICA AÍ E ESCUTA ESSE ANUNCIO ESPECIAL

[INTERVALO - anúncio da cooperativa]

Heloiza: E AGORA VOLTANDO AO EPISÓDIO. HOJE NÓS ESTAMOS CONHECENDO HISTÓRIAS DE BOLIVIANOS E BOLIVIANAS QUE VIVEM EM SÃO PAULO. ATÉ AQUI, OUVIMOS PESSOAS QUE PASSARAM POR SITUAÇÕES QUE NINGUÉM MERECE PASSAR. EU QUERIA DEIXAR, DESDE JÁ, MINHA SOLIDARIEDADE AO REMBERTO, À ZULEMA, À JESSICA E A YENNY. AGORA, Vinicius, O QUE MAIS TU VAIS CONTAR PRA GENTE?

Vinicius: AGORA EU VOU FALAR UM POUCO DA SONIA

Sônia: Oi, eh… meu nome é Sônia Limachi Quispe, eu sou de La Paz, Bolívia, eu estou aqui… onze anos.

Vinicius: Também trabalha com costura?

Sonia: Sim, trabalho com costura.

Vinicius: LOGO DE INÍCIO, A SÔNIA AVISA QUE TEM MUITA HISTÓRIA PRA CONTAR.

Sônia: Mi história és muito larga.

Vinicius: A SONIA CONTA QUE QUANDO ELA TINHA SETE ANOS, A MÃE E O PAI SE SEPARARAM. A MÃE FOI VIVER EM BUENOS AIRES, NA ARGENTINA, E O PAI FICOU TOMANDO CONTA DOS QUATRO FILHOS.

Sônia: Entonces… meu pai que nos criou, ele nos cuidou hasta... Ele sempre falava assim: “eu vou cuidar de vocês hasta que termine a escola, o colégio, despues ya vocês se viram… trabalhar, seguir universidad… cada uno sigue su camino”. Porque ele não tinha condições para quatro filhos estudando na universidad. Entonces, cada uno terminou de estudar e fomos embora, todos.

Vinicius: NA ARGENTINA, PRIMEIRO, A SONIA TRABALHOU COMO COZINHEIRA DENTRO DE UMA FÁBRICA DE COSTURA E DEPOIS PASSOU A COSTURAR. ALÉM DISSO, ELA TAMBÉM TRABALHAVA EM UMA RÁDIO VOLTADA PARA A COMUNIDADE BOLIVIANA.

Sônia: Yo tenía un programa na rádio, meu irmão tenia. Aí como eu era jovem eu falei, “eu quero ir também”, aí então “vamos”. Aí fomos à rádio, e aí ele falou “você quer falar?” “Eu quero falar”. “Então vamos falar”. Davamos notícias, informaciones, prognóstico, músicas… aí, eu quando chegava a los restaurantes, lá: “olha, ali está Sônia, vamos!” Todo mundo assim: “ai, Sônia você manda un saludo, aquela, aquela (?), si”. E meu marido que estava conocendo, ele falava: “nossa, não, não, você tem que sair daí!”.

Vinicius: ESSE MARIDO QUE FEZ A SONIA SAIR DA RÁDIO, TAMBÉM FEZ O CAMINHO DELA SE DESVIAR DA ARGENTINA EM DIREÇÃO AO BRASIL.

Sônia: Aí, meu marido passou para este lado Brasil, e ele (estava) vindo a ajuda da irmã dele, que estava morando aqui. Ele falou assim “eu vou voltar para vocês ir comigo ao Brasil”. E ele… dois anos passou e ele nunca voltou.

Vinicius: SÔNIA JÁ TINHA UM FILHO COM ELE, E TINHA CERTEZA QUE TINHA SIDO ABANDONADA PELO MARIDO PRA SEMPRE.

… Aí eu cheguei parece que:

Vinicius: ELA SOFREU NA MÃO DESSE MARIDO, VIU?

Sônia: Eu fiquei trancada um ano… porque ele não deixava sair, n em a comprar pão. Ele estava de segunda… de segunda a sexta-feira comigo, trabalhando, e ele falava: “eu voy a jogar futebol com meus amigos”. Aí ia muuito longe, no interior.

Vinicius: O MARIDO FALAVA PRA SONIA A MESMA COISA QUE OS EMPREGADORES COSTUMAVAM FALAR PROS BOLIVIANOS QUE ERAM EXPLORADOS.

Sônia: Ele sempre falava: “eu vou comprar verdura, vou comprar carne, vou comprar tudo. Porque, se você sai, a polícia vai vai pegar você”, toda essa charla que eles dão. E eu, por medo eu fiquei.

Vinicius: COMO ELA NÃO SABIA FALAR PORTUGUÊS, SÓ SAÍA JUNTO COM O MARIDO.

Sonia: Até que um dia, uma moça me falou: “moça, você é o que dele?”. Eu falei: “a mulher. Eu tenho um filho com ele”. E ela falou “e a outra, o que é dele?”. Eu falei, “qual a outra?”. “A outra mulher, que sempre está com ele”. Ela me deu um endereço e me falou assim: “domingo, dez horas, você vai a esse endereço, donde ele se encontra com ela”.

Vinicius: A SONIA FICOU NA DÚVIDA, MAS COMO ESTAVA DESCONFIADA DO MARIDO, UM DIA RESOLVEU SAIR SOZINHA ENQUANTO ELE NÃO ESTAVA EM CASA.

Sonia: Eu saí e fui… e era una porta esse endereço. Aí, quando eu sentei falei: “É mentira, que bom. Eu não creio mais nessa moça…”. Quando ele saiu dessa casa com uma menina… E eu estava por virar e ir embora. Aí ele saiu… Aí o mundo todo caiu pra mim. Fiquei muito decepcionada. Sem saber que fazer… deixar tudo na Argentina, hasta minha mãe que chorava muito por eu viver aqui, para estar nesse lugar, não conhecer ninguém, no tener amigos, no saber falar português, para mim, era como se o céu caísse, assim, em cima de mim, assim.

Vinicius: A SÔNIA CONFRONTOU O MARIDO, MAS ELE FALOU QUE IA MUDAR, ABANDONAR A OUTRA E SE DEDICAR MAIS PRA FAMÍLIA. A PARTIR DALI, ELES MONTARAM UMA OFICINA DE COSTURA PRÓPRIA E PASSARAM A GANHAR MAIS DINHEIRO. SÓ QUE AS TRAIÇÕES CONTINUARAM E ELA DECIDIU DEIXAR O MARIDO.

Sonia: E eu falei “você me dá la metade das máquinas”. Ele falou “não. Você quer a oficina? Fica. Pero, meu filho fica comigo”. Eu falei “não”. Ele falou “escolhe, o filho ou as máquinas?”. Eu falei “meu filho”.

PAUSA

Vinicius: ELA TENTOU CONSEGUIR OUTRO LUGAR PARA FICAR, MAS NÃO CONHECIA NINGUÉM.

Sonia: E aí passei todo el día assim, en la rua, dois dias passei na rua. Depois quando voltei, una amiga de la escola me encontrou, acho--… e falou “moça, o que você está haciendo? Você é boliviana igual que eu?”. “Sim”. “Por que você caminha com la cabeça assim? Tem que caminhar, tem que levantar a cabeça”. E eu falei “não, porque… eu, eu… saí da minha casa, não donde ir”. Eu empezava a chorar. E ela me falou “não chora, eu também sou mãe solteira, e tenho meu filho, pero eu tenho um quarto. Se você queira compartir esse quarto, vamos para minha casa”. Eu falei “sim, eu quero”.

Vinicius: ESSA AMIGA TAMBÉM DEIXOU A SONIA USAR A MÁQUINA DE COSTURA DELA PARA TRABALHAR, O QUE AJUDOU BASTANTE NESSE PERÍODO COMPLICADO. AOS POUCOS, ELA FOI JUNTANDO DINHEIRO, CONSEGUIU ALUGAR UM ESPAÇO SÓ PRA ELA E COMPROU ALGUMAS MÁQUINAS. SÓ QUE AÍ, ELA PRECISOU VIAJAR PRA BOLÍVIA E DEIXOU TUDO COM UM CASAL DE CONHECIDOS.

Sônia: Eu quando cheguei, eles fecharam a porta, falaram assim: você abandonou suas máquinas, você abandonou tudo, agora não tem direito a nenhuma dessas coisas. E ficaram com tudo. Aí eu fiquei na rua, não tenia outra vez onde dormir. E eu fui a la policia, falei: eu quero recuperar minhas coisas. Você tem recibo dessas coisas? Tem nota fiscal? Tem tudo? Não. Então se esquece. Ai eu perdi tudo.

Vinicius: LÁ FOI A SÔNIA TRABALHAR TUDO DE NOVO EM OUTRA FÁBRICA DE COSTURA. NESSE NOVO TRABALHO, ELA CONHECEU O SEGUNDO MARIDO, QUE TAMBÉM É DA BOLÍVIA E, DIFERENTE DO OUTRO, FOI MAIS COMPANHEIRO DELA.

Sônia: Fizemos una oficina, trabalhamos juntos, aí ganhei dos filhas, dos meninas... Aí, ele nunca bateu, nunca. O outro sempre, era todos os dias batendo… até ele me deixava coja (coxa?), não podia, não conseguir caminhar, o sea... E eu morava perto da delegacia de polícia, eu morava a um quarteirão! Se agora, se alguém me bate, eu vou direto pra polícia. Essas vezes, eu tinha muito medo.

Vinicius: A SONIA ME CONTOU QUE ALÉM DA VIOLÊNCIA FÍSICA, SOFRIA MUITA VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA DO PRIMEIRO MARIDO. COM O SEGUNDO, AS COISAS FORAM BEM DIFERENTES. OS DOIS SÓ ESTÃO SEPARADOS PORQUE ELE PRECISOU VOLTAR PARA CUIDAR DO PAI IDOSO.

Heloiza: ENQUANTO A SONIA FALAVA, EU FIQUEI PENSANDO MUITO EM COMO AS MULHERES MIGRANTES FICAM MAIS VULNERÁVEIS À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. ELAS NÃO TÊM DINHEIRO, NÃO TÊM AMIGAS, NÃO CONHECEM A CIDADE E AINDA TEM A QUESTÃO DA LÍNGUA QUE DIFICULTA FAZER A DENÚNCIA.

Vinicius: UMA COISA QUE A SONIA ME FALOU VAI BEM NESSA DIREÇÃO, ELA FEZ UM CURSO DE PORTUGUES PENSANDO EM TER MAIS AUTONOMIA, DEPENDER MENOS DE OUTRAS PESSOAS PARA CIRCULAR PELA CIDADE.

PODER CONTAR COM A REDE DE MULHERES DA COOPERATIVA TAMBÉM AJUDA A TOMAR A INICIATIVA DE INTERROMPER ESSAS VIOLÊNCIAS.

E FOI UMA AMIGA DA SONIA, A BETY, QUE A CONVIDOU PARA CONHECER A COOPERATIVA.

Bety: Yo soy de Oruro e nasci em Chachapata.

Vinicius: Tá desde quando aqui?

Bety: Estoy há 12 anos aqui.

Vinicius: Seu nome…?

Bety: Bety Poquechoque Quispe.

Vinicius: FOI A BETY QUE FEZ TODA A ARTICULAÇÃO PARA AS ENTREVISTAS COM AS INTEGRANTES DA COOPERATIVA. ASSIM COMO A SONIA E AS OUTRAS MULHERES, ELA TAMBÉM TEM UMA HISTÓRIA “MUY LARGA”, QUE TAMBÉM COMEÇA NA BOLÍVIA, QUANDO ELA ERA UMA CRIANÇA DE CINCO ANOS DE IDADE.

Bety: Entonces, aí, meus pais… aquela época, se separaram, né? Minha mãe foi embora, porque meu pai jogou a minha mãe, então… minha mãe foi embora. Nos quedamos com o pai, e homem é homem, às vezes procura outra mulher, deixou nós a nossa sorte de nós, né? Entonces, para nós foi, para mim foi muito triste... El día que nosotros no teníamos comida, não comíamos.

Vinicius: BETY E OS IRMÃOS PEQUENOS VIVIAM DE PASTOREAR OVELHAS DE VIZINHOS EM TROCA DE COMIDA. ELA ME CONTOU QUE OS VIZINHOS FICARAM TOCADOS tristes COM A SITUAÇÃO E FIZERAM UMA VAQUINHA PRA REUNIR OS FILHOS COM A MÃE.

Bety: E como los comunarios juntaram dinheiro e mandaram mia mãe para ir a pegar a nós. Aí quedamos con mi mamá. Quedamos e aí yo dije “muy bien, encontramos mi mamá, agora vai ser mais tranquilo”. Obvio, foi mais tranquilo, solo que mia mãe não conseguiu manternos a nós.

Vinicius: A BETY ENTÃO FOI ADOTADA POR UMA MULHER QUE ERA PROFESSORA E TAMBÉM TINHA UMA REDE DE BARES E KARAOKÊS. O GESTO DA DONA AURORA TAMIRAN TIROU A BETY DA FOME, DA ORFANDADE E TAMBÉM DO ABUSO SEXUAL QUE ELA SOFRIA.

Bety: Hasta aí, eu ya havia passado mucha cosas marcantes em minha vida… Hasta fui abusada também. (interjeição de Vinicius) Entonces aí, desde entonces, que eu morei com ela, nunca más nadie me tocou, nadie! Por eso, quando eu vejo un huerfano, eu sinto muito pena. Alguém está sendo amenaçado ou abusado,uma criança, eu lembro aquela época, do que eu passei, entonces eu trato de ajudar agora né?

Vinicius: A MÃE ADOTIVA TRATAVA A BETY IGUAL ÀS OUTRAS FILHAS. JÁ NA ADOLESCÊNCIA, A BETY COMEÇOU A AJUDAR NA ADMINISTRAÇÃO DOS NEGÓCIOS DA MÃE.

Bety: E eu criei… como ela me ensinou, a ser líder. Entonces ela me disse “filha, você vai aprender a virar en la vida”.

Vinicius: COMO A BETY TAMBÉM TINHA PENDORES ARTÍSTICOS, A MÃE SUGERIU PRO DONO DA RÁDIO DA CIDADE CONTRATAR A FILHA.

Bety: Se llamaba Radio Meteoro 101.1. Yo fui a trabajar ahí la primera vez, y yo dije “nossa! como es que manejo aqui?”. E después ya… eu gustaba muuucho de las músicas. Aí eu ensaiei… ensaiava as meninas para cantar. Eu también me meti aí. “Será que puedo? Claro que puedo”. Yo empecé con las Chicas Mañaneras, yo era la tercera voz como yo recién estaba aprendiendo.

Vinicius: AS CHICAS MAÑANERAS SÃO UM GRUPO QUE EXISTE ATÉ HOJE E FAZ ALGUM SUCESSO NA BOLÍVIA E NO PERU. COMO O GRUPO DEMANDAVA MUITAS VIAGENS, A MÃE NÃO QUIS DEIXAR A BETY CONTINUAR. MAS ELA ENTROU EM OUTRO, AS AMOROSITAS.

HELÔ: UAU!!! ADOREI SABER QUE A BETY TAMBÉM É CANTORA!

EU ACHO QUE A ARTE SEJA A MÚSICA, O TEATRO, A PINTURA, A ESCULTURA, O CANTO, A ARTE TEM UM ELEMENTO REPARADOR DE NOSSO ESPÍRITO HUMANO. A BETTY PRECISAVA RECONSTRUIR E FORTALECER O ESPÍRITO E A FORÇA CRIATIVA DELA DEPOIS DE TUDO QUE ELA PASSOU NA INFANCIA. VIVA A BETTY!!!!

AGORA, EU QUERIA ENTENDER POR QUE ELA VEIO PARA O BRASIL.

Vinicius: A HISTÓRIA PARECE MUITO COM AS DE OUTRAS COMPANHEIRAS DA COOPERATIVA. ELA SE CASOU E O MARIDO VEIO PARA O BRASIL. AÍ ELA ACABOU DECIDINDO VIR TAMBÉM. COMO ELA TINHA UM PRIMO QUE JÁ MORAVA AQUI, CONSEGUIU EMPREGO BEM RÁPIDO, TAMBÉM NA ÁREA DE COSTURA, E COMO ELA MESMA FALOU, NÃO PASSOU POR NENHUM TIPO DE EXPLORAÇÃO.

TOU TODO MUNDO. NO INÍCIO DE:

Bety: Yo, la verdad, en la pandemia ayudé-- cuando yo llegué aquí, estaba socorriendo a cuatro familias. Estaban en el mismo departamento, todos infectadas. Gracias a Dios que a nosotros no nos pasó nada, y yo llevaba comida a cada uno (uhum). Yo entré por eso, porque yo no iba a poder sustentar sola… comprar, porque yo no les pedía dinero a ellos… yo sozinha que yo les daba de comer a ellos... Y tenía que hacer comida saludable.

Vinicius: ASSIM COMO A BETY, A ZULEMA, A JESSICA, A SONIA E A YENNY TAMBÉM PROCURARAM A CASA DO POVO PARA CONSEGUIR UMA CESTA BÁSICA. ELAS TINHAM POUCA DEMANDA DE TRABALHO E ESTAVAM COSTURANDO MÁSCARAS PARA VENDER.

Yenny: Na época, era pandemia. Não tinha trabalho e… estavam começando com máscara e estavam fazendo máscara, né? [Vinicius 82: ESSA É AQUI É A YENNY] Com um preço bom, porque na época era cinquenta centavos que estava ganhando por máscara. Mas na Casa do Povo estava com três reais… é um preço bom, né?

Vinicius: A YENNY GANHAVA 50 CENTAVOS POR MÁSCARA, MAS A ZULEMA GANHAVA APENAS 30 CENTAVOS. UMA REPORTAGEM DA JORNALISTA FLÁVIA MANTOVANI, DA FOLHA DE SÃO PAULO, FALA EM PAGAMENTO DE CINCO E DEZ CENTAVOS PRAS MÁSCARAS FEITAS POR BOLIVIANOS. COMO A YENNY ADIANTOU, A CASA DO POVO DECIDIU ENCOMENDAR MÁSCARAS PARA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA, PAGANDO CERCA DE TRÊS REAIS POR PEÇA.

Mayara: E a gente viu também que algumas vezes a oferta de trabalho em si não resolvia, não é só uma oferta de trabalho, é um valor justo.

Vinicius: ESSA É A MAYARA VIVIAN, COORDENADORA DE PROJETOS SOCIAIS DA CASA DO POVO.

Mayara: Mas a lógica dessa terceirização estrutural era tão arraigada, que às vezes você passava as máscaras num valor e a pessoa, ou por desespero ou pelo hábito de atuar dessa forma, repassava essa mesmo trabalho com valores menores pra outras pessoas, porque era assim que a engrenagem estava dada, né?

Vinicius: FOI ENTÃO QUE SURGIU A IDEIA DE MONTAR UMA COOPERATIVA, PARA QUEBRAR O MODELO DE PRODUÇÃO TERCEIRIZADO - ONDE UM PEGA O TRABALHO PASSA PARA OUTRO FAZER COM UM VALOR BEM MENOR, ESSE POR SUA VEZ PODE PASSAR PARA OUTRO NO VALOR MENOR AINDA E ASSIM VAI A CORRENTE DE TERCEIRIZAÇÃO. ESSA TERCEIRIZAÇÃO EXIGE MUITO TRABALHO E PAGA POUCO.

Mayara: Aí, nesse sentido a gente reuniu pessoas mais ativas da comunidade, a gente conseguiu identificar elas através, não só da nossa relação com a comunidade, mas através da comunidade escolar mesmo, né? As mães que eram mais ativas e tudo mais, como a Bety, como a Sônia. E aí a gente reuniu aqui no grupo de cinco, seis e falou, “olha existe essa forma de organização que é de cooperativa, a gente não tem muita experiência, mas a gente toparia apoiar vocês, incubar vocês se vocês acharem que vale a pena”, e essas pessoas compraram a proposta, né?

Vinicius: A YENNY E A BETY ESTAVAM NESSE PRIMEIRO GRUPO.

Mayara: E aí, em duas, três sessões, por conta do covid, pra não juntar todo mundo, a gente… explicou o que era uma cooperativa, quais eram os princípios, que ia demandar uma energia, mas que era um investimento que elas faziam pro negócio coletivo delas.

GRUPO FOI CRIADO EM JULHO DE:

Heloiza: ENTÃO A GENTE PODE DIZER QUE A COOPERATIVA É UM FINAL FELIZ PARA A HISTÓRIA DESSAS MULHERES QUE A GENTE CONHECEU AQUI?

Vinicius: NA VERDADE, ESTÁ MAIS PARA UM RECOMEÇO FELIZ….

Heloiza: ME CONTA COMO ELAS ESTÃO HOJE?

Vinicius: ENTÃO VAMOS LÁ, TODO MUNDO CONSEGUE TRABALHAR EM CASA, O QUE JÁ É UM GANHO ENORME PERTO DO QUE ELAS JÁ PASSARAM. A ZULEMA MORA COM OS FILHOS NUM APARTAMENTO SÓ PRA ELA, E A FILHA MAIS VELHA DELA ESTUDA MEDICINA LÁ NA BOLÍVIA.

Heloiza: QUE LEGAL ISSO!

Vinicius: SIM! A JESSICA HOJE TRABALHA COMO PILOTEIRA.

Heloiza: O QUE É SER PILOTEIRA?

Vinicius: É QUEM MONTA AS PEÇAS QUE VÃO SER USADAS DEPOIS COMO MODELO PELAS OUTRAS COSTUREIRAS. É UM TRABALHO SUPER IMPORTANTE.

A YENNY ESTÁ ESTUDANDO MODELAGEM, PORQUE ELA QUER DESENHAR ROUPAS. ELA PEDIU PRA DIZER QUE O MARIDO NÃO BEBE MAIS, QUE OS DOIS SÃO EVANGÉLICOS E VIVEM BEM.

A SONIA DÁ AULAS DE COSTURA PARA UMA ONG DE PESSOAS TRANS E ELA DISSE QUE AS MULHERES TRANS ENSINARAM A ELA A RIR E SER MAIS FELIZ

JÁ A BETY, ELA ACABOU DE TERMINAR UM TRATAMENTO DE C NCER E ESTÁ PENSANDO EM VOLTAR A CANTAR.

Heloiza: E VINICIUS, ENTÃO ELAS JÁ VIVEM SÓ COM O DINHEIRO DA COOPERATIVA?

Vinicius: AINDA NÃO, HELÔ! ELAS ME FALARAM QUE TÊM ESSA EXPECTATIVA. HOJE EM DIA, ELAS TRABALHAM EM CASA, E GANHAM EM MÉDIA DE 3 A 7 REAIS POR PEÇA DE ROUPA COSTURADA.

Jessica: A cooperativa está começando, né? [VINICIUS: AQUI A JESSICA] Não é una cosa que nos sus… não é sustentável ainda. Mas a gente acredita daqui a um tempo ser uma coisa que nos sustente, que seja um um salário de… três três mil que a gente ganhe, né? Seja um salário… porque hoje em dia está tudo caro, né? O mínimo que pode ser é três mil.

Vinicius: EM VÁRIOS MOMENTOS, ELAS ME FALARAM DESSA META DE CADA UMA RECEBER AO MENOS TRÊS MIL REAIS, É O VALOR QUE ELAS CONSIDERAM SUFICIENTE PARA ABRIR MÃO DE COSTURAR PARA AS FÁBRICAS. MAS É INTERESSANTE QUE MESMO QUE A COOPERATIVA AINDA NÃO GARANTA A MAIOR PARTE DA RENDA DELAS, ELA ABRIU POSSIBILIDADES DE RELAÇÃO COM A CIDADE DE SÃO PAULO.

Zulema: E aqui eu vejo oportunidades. Não só… não só no trabalho, porque tem eventos, que, tipo, eu nem imaginava conhecer ou saber de alguma coisa. Eu vou dar um exemplo só de ontem: na minha terra, se você morar lá e ver una ópera, é imposible. Agora, ontem a gente foi na ópera (risos - e Vinicius falando que chique kkk).

Vinicius: ESSA É A ZULEMA CONTANDO DE UM PASSEIO QUE ELAS TINHAM FEITO. O GRUPO TAMBÉM PARTICIPOU DE UM JANTAR FEITO PELA CHEF PAOLA CAROSELLA.

Zulema: A gente deu de presente una bolsa da cooperativa. Nossa, ela pegou nosso presente e ainda fez a comida! A gente está comendo a comida dela! Ela, ela... Paola Carosella.

Heloiza: ISSO É MUITO LEGAL.

Vinicius: SIM! TEM OUTRA COISA BACANA PORQUE QUANDO A COOPERATIVA PROPÕE OUTRO MODELO DE NEGÓCIOS, QUE NÃO É BASEADO EM QUANTIDADE, ISSO PERMITE QUE ELAS POSSAM EXPLORAR OS PRÓPRIOS TALENTOS. COMO EU FALEI, A YENNY ESTÁ ESTUDANDO MODELAGEM E QUER PRODUZIR ROUPAS MAIS AUTORAIS. A ZULEMA QUER TRABALHAR COM BORDADOS ANDINOS. TODAS ELAS QUEREM EXPLORAR OUTROS TALENTOS.

VOCÊ LEMBRA QUE LÁ NO INÍCIO EU ESTAVA NA FESTA DA INDEPENDÊNCIA DA BOLÍVIA? ENTÃO, NO MESMO DIA, QUE FOI 6 DE AGOSTO, A CASA DO POVO DEU UMA FESTA PARA CELEBRAR SEUS 69 ANOS. ELAS PARTICIPARAM VENDENDO COMIDAS DA BOLÍVIA, CAMISAS E BOLSAS E TAMBÉM DANDO OFICINA DE BORDADO!

NESSE DIA, A BETY ME RECEBEU VESTIDA SABE COMO? DE CHOLITA, IGUAL A FLORENCIA LÁ DO INÍCIO DO EPISÓDIO! E EU PERGUNTEI O QUE REPRESENTAVA PRA ELA AQUELA VESTIMENTA.

Bety: Força, trabalho! Minha roupa é saia larga, non? É muito campanada né? E tem… hum algunas cores fortes, né? Tem aquelas cores que fazem, né? (...) Esse daqui é la manta, esse daqui um chapéu.

Vinicius: NAQUELE MOMENTO ELA ESTAVA ENSINANDO UMA MOÇA A BORDAR.

Bety: Quieres hacer qual? Son puntos que puedes hacer aquí en los desenhos, essa es la kantuta de Bolivia.

Vinicius: O que é kantuta?

Bety: Es una florcita si son roja, amarillo y verde, una una florzinha que tem color de Bolivia. É simbólica de Bolívia.

Heloiza: O NOME DO EPISÓDIO É FLOR DE KANTUTA! É DISSO QUE ELA ESTÁ FALANDO?

Vinicius: SIM! DURANTE A SEMANA QUE EU PASSEI COM ELAS EU OUVI MUITO FALAR EM KANTUTA, MAS NÃO SABIA O QUE SIGNIFICAVA. EM SÃO PAULO EXISTE UMA PRAÇA CHAMADA KANTUTA, EM HOMENAGEM À BOLÍVIA. ESSA FLOR É CONSIDERADA SAGRADA E COSTUMA SER BEM RESISTENTE À SECA E ÀS TEMPERATURAS BAIXAS. ENTÃO EU PENSEI QUE AS MULHERES DA COOPERATIVA, ASSIM COMO O REMBERTO QUE FAZ A FLORENCIA, SÃO FLORES DE KANTUTA. TODOS PASSARAM POR SITUAÇÕES MUITO COMPLICADAS E MESMO DESUMANAS E MESMO ASSIM, SEGUEM FLORESCENDO.

Heloiza: ALÉM DISSO, EU NOTEI QUE NO CASO DA COOPERATIVA, AS MULHERES ENCONTRARAM MUITO MAIS QUE UMA FORMA DE TER TRABALHO. QUANDO ELAS SE JUNTAM E TROCAM EXPERIÊNCIAS, ELAS SE FORTALECEM E NOVOS MUNDOS SE ABREM.

Vinicius: A SÔNIA ME FALOU UMA COISA QUE TEM TUDO A VER COM ISSO.

Sonia: Todo mundo tem una história que contar, pero eu creo que cada história seja para cada uma crescer mais. Crescer e acreditar que… que não estamos sós. Que Deus sempre dê um plano para cada um. E graças todo lo que uno passa, outras pessoas se veem ahi mismo, como no espelho. Ah, ela cresceu? Eu também quero crescer como ela.

Vinicius: SABE OUTRA COISA QUE FICOU, HELÔ? EU NÃO SABIA QUE A COMUNIDADE BOLIVIANA É A MAIOR COMUNIDADE ESTRANGEIRA DE SÃO PAULO. QUANDO A GENTE FALA DE IMIGRAÇÃO EM SÃO PAULO, A GENTE PENSA EM ITALIANOS, SÍRIOS, COREANOS, JAPONESES. A GENTE SÓ OUVE FALAR EM BOLIVIANOS QUANDO TEM NOTÍCIA DE ESCRAVIZAÇÃO. E O QUE EU APRENDI NISSO TUDO É QUE A COMUNIDADE DELES TÊM LAÇOS DE SOLIDARIEDADE MUITO FORTES E CONSEGUEM MANTER A CULTURA DO PAÍS MUITO VIVA. EU FUI NA FESTA DA INDEPENDÊNCIA E É COMO SE EU TIVESSE CONHECIDO UMA PARTE DA BOLÍVIA.

Heloiza: E PRA MIM O QUE FICOU DESSE EPISÓDIO É QUE A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DE IMIGRANTES, SEJAM ELAS FAXINEIRAS BRASILEIRAS EM BOSTON, OU COSTUREIRAS BOLIVIANAS EM SÃO PAULO, ESSA EXPLORAÇÃO É UM PROBLEMA SÉRIO. UM PROBLEMA CRIADO POR UMA ECONOMIA QUE NÃO VALORIZA OS TRABALHADORES QUE LIMPAM NOSSAS CASAS, NOS ESCOLAS, HOSPITAIS, QUE CUIDAM DE NOSSAS CRIANÇAS, E QUE FAZEM AS NOSSAS ROUPAS. ENTÃO EU ESPERO QUE O TRABALHO MARAVILHOSO DESSAS TALENTOSAS COSTUREIRAS BOLIVIANAS SEJA VALORIZADO CULTURALMENTE E FINANCEIRAMENTE. ESPERO QUE ESSAS MULHERES E SEUS FILHOS QUE SÃO A FUTURA GERAÇÃO DE BRASILEIROS-BOLIVIANOS SEJAM TRATADOS COM RESPEITO E DIGNIDADE E TENHAM CONDIÇÕES DE FLORESCER NO BRASIL.

Heloiza: AH, Vinicius…. VOCÊ ME CONTOU DAS MENINAS DA COOPERATIVA, MAS NÃO ME FALOU DO REMBERTO. COMO ELE ESTÁ AGORA?

Vinicius: VERDADE! DEPOIS DE TRABALHAR NA FÁBRICA DE PERUCAS, O REMBERTO FEZ UM CURSO DE CUIDADOR DE IDOSOS E HOJE DIVIDE ESSE TRABALHO COM APRESENTAÇÕES DA FLORENCIA. E UMA CURIOSIDADE: DURANTE A PANDEMIA, ELE FICOU MORANDO POR SETE MESES NUM HOSPITAL PARA CUIDAR DE UM PACIENTE!

QUANDO EU ENCONTREI COM ELE VESTIDO DE FLORENCIA LÁ NA FESTA, PERGUNTEI QUAL O PLANO DELE PRO FUTURO.

Florencia: E eu fundar minha própria ONG, né? Para receber aqui em São Paulo, Brasil, os imigrantes refugiados LGBTQIA que chegassem aqui em São Paulo. Porque vem muito, agora com a guerra… antes da pandemia, já havia muito da Síria, né? Ahora com a Ucrânia e do países vizinhos que vêm mesmo em busca de oportunidades.

Vinicius: A BOA NOTÍCIA É QUE O REMBERTO ESTÁ EM CONTATO COM A CASA DO POVO, A MESMA DA COOPERATIVA, PARA DAR OS PRIMEIROS PASSOS DESSA ONG.

Heloiza: FICO MUITO FELIZ EM VER MAIS UMA FLOR DE KANTUTA NASCENDO EM SÃO PAULO.

PAUSA

Heloiza: VINICIUS, ANTES DA GENTE ACABAR, ACHO IMPORTANTE FALAR EM COMO NÓS ENQUANTO CONSUMIDORES PODEMOS COMPRAR ROUPAS DE FORMA MAIS CONSCIENTE, USANDO PRODUÇÕES QUE NÃO UTILIZAM TRABALHO ESCRAVO. TEM COMO?

Vinicius: ENTÃO, EXISTE UM SITE, QUE TAMBÉM TEM UM APLICATIVO, CHAMADO MODA LIVRE. ELE REGISTRA OCORRÊNCIAS DE FÁBRICAS LIGADAS A GRANDES MARCAS QUE UTILIZAM TRABALHO ESCRAVO E DÁ UMA NOTA PARA CADA UMA DELAS, DE ACORDO COM AS MEDIDAS TOMADAS PARA GARANTIR QUE NÃO EXISTA EXPLORAÇÃO EM NENHUMA ETAPA DA PRODUÇÃO.

O SITE É MODALIVRE.ORG.BR.

E TAMBÉM É LEGAL FORTALECER INICIATIVAS COMO A COOPERATIVA EMPRENDEDORAS SIN FRONTERAS, O INSTAGRAM DELAS É EMPRENDEDORASSINFRONTERAS, TUDO JUNTO E EM ESPANHOL. A GENTE VAI DEIXAR O LINK NAS NOTAS DO EPISÓDIO E NO SITE DO FAXINA

Heloiza: TAMBÉM PELO QUE A GENTE OUVIU, PRECISAMOS FALAR SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. NENHUMA MULHER PODE TOLERAR AGRESSÕES, SEJA DE QUAL TIPO FOR. PARA ISSO, EXISTE O TELEFONE 180, QUE REGISTRA DENÚNCIAS E DÁ ORIENTAÇÕES SOBRE O QUE FAZER NESSES CASOS. JÁ SOBRE ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS, SE VOCÊ SOUBER OU SUSPEITAR DE QUALQUER COISA, LIGA PARA O DISQUE 100, QUE É A LINHA DOS DIREITOS HUMANOS. ELES VÃO TE ORIENTAR SOBRE COMO PROCEDER COM A DENÚNCIA.

PAUSA

Heloiza: VINICIUS, MUITO OBRIGADA POR ESSAS HISTÓRIAS.

Vinicius: EU QUERO AGRADECER IMENSAMENTE PELA OPORTUNIDADE DE TER ENTRADO EM CONTATO COM PESSOAS TÃO ESPECIAIS. EU OUVI MUITO DAS PESSOAS QUE O POVO BOLIVIANO É MUITO FECHADO, MAS FOI INCRÍVEL COMO TODOS QUE PARTICIPARAM DESSE EPISÓDIO SE DISPUSERAM A SE ABRIR E PARTILHAR UM POUCO DAS SUAS VIDAS.

Heloiza: E TU OUVINTE, TU PODES AJUDAR A COOPERATIVA SIN FRONTERAS DE VARIAS FORMA. UM JEITO É IR NO SITE - A GENTE VAI DEIXAR NAS NOTAS DO EPISÓDIO O LINK PRO INSTAGRAM DELAS - E VEJAS AS COISAS LINDAS FEITAS POR ESSAS TALENTOSAS COSTUREIRAS. SE TU PUDERES, COMPRA E DÁ DE PRESENTE PRAS AMIGAS E AMIGOS E AMIGUES. E TAMBÉM CONTA PARA AS PESSOAS DESSA COOPERATIVA EM SÃO PAULO.

EU COM CERTEZA QUERO UMA BOLSA DAQUELA LINDA DE PRESENTE…

Vinicius: AH EU COMPREI UMA PRA MIM…. [HELOIZA E VINICIUS SEGUEM CONVERSANDO E RINDO]

CRÉDITOS.

ESSE EPISÓDIO FOI PRODUZIDO POR MIM HELOIZA BARBOSA

ROTEIRO DE VINICIUS LUIS

ASSISTÊNCIA DE ROTEIRO DE JESSICA ALMEIDA, HELOIZA BARBOSA E VALQUIRIA GOUVEA

EDIÇÃO E MIXAGEM DE PAULO PINHEIRO

MÚSICAS ORIGINAIS DE PAULO PINHEIRO

TRILHA SONORA ADICIONAL DE BLUE DOT SESSIONS, E CHICAS MANÃNERAS

ILUSTRAÇÕES E ANIMAÇÕES DE VINICIUS CRUS E NATALIA GREGORINI

A MÍDIA SOCIAL DO FAXINA É RESPONSABILIDADE DE NICK MAGALHÃES

A GENTE QUER DEIXAR UM MUITO OBRIGADO À CADA DO POVO PELA ACOLHIDA, E TAMBÉM A RADIO UFMG EDUCATIVA E AO PODCAST GARAGE DA PRX QUE NOS EMPRESTOU OS ESTÚDIOS PARA GRAVAÇÃO

A REALIZAÇÃO DESSE EPISÓDIO CONTOU COM A AJUDA DE NOSSOS APOIADORES NA NOSSA CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLETIVO NO APOIA.SE. SE VOCÊ AINDA NÃO APOIA O FAXINA PODCAST E TEM CONDIÇÕES DE DOAR 10 REAIS POR MÊS POR FAVOR, SEJA NOSSO APOIADOR. COM 10 REAIS POR MÊS VOCÊ FAZ ESSE PODCAST ACONTECER.

POR FAVOR, DEIXA UMA ESTRELINHA PRA GENTE DEPOIS DE OUVIR OS NOSSOS EPISÓDIOS, ISSO AJUDA MAIS GENTE A DESCOBRIR O FAXINA

E NÃO ESQUECE DE FALAR DO FAXINA PARA OS AMIGOS, AMIGA, MIGUES, VIZINHANÇA E PARENTES. PORQUE DE BOCA EM BOCA, A GENTE CHEGA AOS OUVIDOS DO MUNDO!

OBRIGADA POR ESCUTAR O FAXINA. ATÉ O PRÓXIMO EPISÓDIO!

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