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Operação Alpha. Capítulo 1
Episode 2004th September 2026 • Hextramuros Podcast • Washington Clark dos Santos
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Transcripts

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Muito antes da inteligência artificial, dos sistemas integrados de análise de dados, da geolocalização em tempo real e das modernas plataformas de investigação, homens e mulheres da Polícia Federal já enfrentavam organizações criminosas transnacionais utilizando aquilo que continua sendo o ativo mais valioso de qualquer investigação: inteligência, perseverança, capacidade analítica e coragem. Na década de mil novecentos e noventa, quando o Cartel de Cali figurava entre as organizações criminosas mais poderosas do planeta, uma investigação conduzida pela Polícia Federal brasileira culminou na apreensão de aproximadamente 7.3 toneladas de cocaína, ainda, a maior já realizada no país, revelando uma complexa estrutura logística que conectava produtores colombianos, transportadores, financiadores e distribuidores instalados em território nacional. Mais do que registrar um grande sucesso operacional, essa investigação tornou-se um importante marco histórico da Polícia Federal e oferece valiosas lições sobre liderança investigativa, gestão de equipes, inteligência policial, cooperação institucional e tomada de decisão em ambientes de elevada incerteza. Para revisitar essa história diretamente com quem a viveu, tenho a honra de receber o Veterano Delegado de Polícia Federal Antônio Borges Filho, responsável pelo início da investigação e autor do livro Operação Alpha – A Rota da Cocaína de Cali no Brasil.

Dr. Borges; seja muito bem-vindo! Na satisfação em recebê-lo, agradeço sua generosidade em compartilhar conosco os bastidores de uma investigação que permanece como referência tanto para gerações de policiais quanto estudiosos da persecução criminal! Antes de entrarmos propriamente na Operação Alfa, vamos visitar o contexto no qual se desenvolveu aquele momento histórico. Como era o cenário do narcotráfico internacional, na primeira metade da década de mil novecentos e noventa? Qual era a dimensão do poder exercido pelo Cartel de Cali e, por que o Brasil passou a ocupar posição estratégica em suas rotas logísticas?

CONVIDADO:

Olá, Clark! Meu abraço a todos os ouvintes do Podcast Hextramuros! Muito obrigado pelo convite para essa participação! Sinto-me honrado e devo esclarecer que não fui o único responsável pela investigação! Realmente, eu dei o pontapé inicial na investigação, em novembro de mil novecentos e noventa e três! Nessa época, estava lotado na Delegacia da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, mas, com o andamento dos trabalhos e os dados que surgiram, eu tive que me reportar à Divisão de Repressão a Entorpecentes, na sede da Polícia Federal, em Brasília. Então, os delegados Sérgio Sakon, Ronaldo Urbano e Wilson Damásio, que eram lotados naquela Divisão passaram a centralizar as informações e coordenar os trabalhos, pois, foram criados grupos de trabalho pelo Brasil afora na Região Norte, na Região Centro Oeste, no Sudeste e no Sul do Brasil. O detalhe é o seguinte: desde os meados da década de mil novecentos e oitenta, a Colômbia vivia um verdadeiro caos social! Aquele país sofria com os cartéis de droga e os grupos paramilitares, além dos terroristas! Os cartéis mais importantes eram o de Medellín, chefiado pelo conhecido Pablo Escobar, e o Cartel de Cali, que era comandado pelos irmãos Orejuela. Tais cartéis tinham estratégias diferentes de ação. O Cartel de Medellín, do Pablo Escobar, usava violência. O Cartel de Cali, dos Orejuela, utilizava a corrupção. Em junho de mil novecentos e noventa e um, Pablo Escobar negociou a sua rendição e foi cumprir sua pena numa prisão que ele mesmo mandou construir. E de lá ele fugiu, em julho de noventa e dois! Ou seja; ficou um ano, só, preso! E a sua fuga acabou enfraquecendo o seu poder pois, muitos dos seus aliados, ou foram mortos o debandaram para o lado do Cartel de Cali. Aí, o Cartel de Cali se associou a outros cartéis menores e chegou a dominar 70% da cocaína produzida e exportada na Colômbia! Isso fez com que o governo americano atuasse diretamente naquele país visando impedir a saída de cocaína por barcos no mar do Caribe ou transportado por pequenos aviões. Por isso, o Cartel de Cali passou a trazer a sua droga para o Brasil. E, daqui, se enviava a droga para os Estados Unidos, escondida em cargas legais. E o Cartel de Cáli, como se associou a outros cartéis menores, tinha uma facilidade, porque na época, também existia o chamado Cartel de Letícia, que nós vamos ver, teve uma grande movimentação nessa história toda!

ANFITRIÃO:

Em seu livro, percebemos que grandes investigações raramente começam com provas robustas. Normalmente, surgem de informações aparentemente desconectadas. Como nasceu a Operação Alpha? Em que momento o senhor percebeu que aqueles primeiros indícios poderiam conduzir a uma estrutura criminosa muito maior do que inicialmente se imaginava?

CONVIDADO:

Em meados de novembro de noventa e três, quando recebi uma correspondência sem remetente, foi que começou essa história toda! E a gente vai ver que é um fato assim - não que a denúncia anônima seja difícil de acontecer na polícia! - mas, revelando um crime tão grande, realmente, é difícil até de se acreditar! Quando eu abri essa correspondência sem remetente, verifiquei que se tratava de uma cópia de uma reportagem de um jornal de Foz do Iguaçu que reproduzia a prisão de um traficante naquela cidade em noventa e um. Esse traficante era conhecido pelo apelido de “Curica” e era muito conhecido nos órgãos de segurança pública naquela época! No verso dessa cópia, havia um pequeno texto datilografado - ainda era a época das máquinas de escrever - esse texto dizia exatamente o seguinte: “investiguem Nasrat Mohamad Jamil Rassoul. Ele vai enviar 3 toneladas de cocaína para os Estados Unidos em dezembro próximo.” Caramba! Ficamos assustados! Naquela época essa denúncia parecia mais uma informação sem nexo nenhum, porque era uma quantidade de cocaína muito grande para ser enviada para os Estados Unidos e era difícil de se acreditar! Mas, mesmo assim, “vamos dar uma olhada para ver o que temos aí! Se é apenas uma denúncia querendo incriminar alguém por alguma vingança e que a pessoa não tivesse nada a ver com o tráfico. A primeira providência que nós tomamos foi verificar a existência do tal Nasrat. Isso feito, nós constatamos que existia mesmo um libanês naturalizado brasileiro residente em Foz do Iguaçu e que era dono de uma loja no Paraguai, mas, nada de irregular contra ele. Os primeiros indícios só foram surgir quando, depois de termos autorização judicial, acessamos as contas telefônicas do Nasrat. Verificamos ao fazer a análise que seu telefone mantinha ligações com algumas localidades em Rondônia e no Amazonas. Nós tivemos então que transmitir para os colegas em Brasília aquelas contas para que fossem analisadas lá e ver se tinha conexão com os traficantes do lado norte do país. Depois de algum tempo, eles nos disseram que os números telefônicos que o Nasrat ligava eram de traficantes internacionais! Aí surgiu uma luz de alerta! Ou seja; pode realmente existir alguma coisa naquela carta anônima! inclusive o delegado Urbano, na época, pediu que investigássemos com afinco, com sigilo total, pois os indícios apontavam que poderíamos ter bons resultados naquele trabalho. E, assim, foi o surgimento dos primeiros caminhos para a investigação.

ANFITRIÃO:

Hoje, convivemos com reconhecimento facial, análise massiva de dados, geointeligência, inteligência artificial e inúmeras ferramentas tecnológicas. Naquela época praticamente nada disso existia! Quais foram os maiores desafios investigativos impostos pelas limitações tecnológicas da década de mil novecentos e noventa e quais competências da equipe se mostraram decisivas para superar essas dificuldades?

CONVIDADO:

Realmente, sua pergunta é muito pertinente para situarmos a época da investigação! Além da inexistência da tecnologia, a Polícia Federal naquela época tinha um grande déficit pessoal! Naquele tempo, a internet era algo muito distante da nossa realidade! A telefonia celular estava se iniciando aqui no Brasil e outras tecnologias ainda eram sonhos! A transmissão de informação sensível era realizada pessoalmente ou por correspondência através de malotes. Para se ter uma ideia, para conseguirmos ter acesso a uma conta de telefone - não era nem para fazer interceptação - entre o pedido judicial e a entrega e análise desses documentos decorriam de quinze a vinte dias! Posso dizer que foi por isso que não conseguimos interceptar a tal remessa de 3 toneladas de cocaína que é mencionada na carta denúncia! E mais, para fazer um trabalho desse precisa de comunicação rápida! Os nossos rádios tinham uma limitação muito grande, muito difícil! Às vezes, tinha que colocar vários postos de trabalho, porque a base não alcançava o último posto. Então, a mensagem se repetia através desses postos. Para superar essas dificuldades, era necessário que os policiais tivessem muita persistência, muito trabalho e, às vezes, até criatividade, porque senão não conseguia trabalhar! Eu me lembro que, ainda depois dessa investigação, algum tempo depois, eu trabalhava em Santa Catarina e nós precisávamos fazer um trabalho de madrugada numa estrada e não tinha iluminação, mas tinha que ser em determinado ponto para que nós pudéssemos ter acesso ao crime que iria ser cometido, provavelmente. Nós tivemos que superar essa dificuldade. Uma ideia de um colega de Santa Catarina, o Ferrari, que montou uma estrutura que nós chavávamos de “vagalume”, porque eram pequenos postes de alumínio, com umas lâmpadas mais potentes e que eram alimentadas por um gerador a gasolina, para gente ficar ali à noite e abordar os veículos que passassem. E deu certo! Foi alguma coisa, realmente, bacana! E tem o seguinte também: quando você trabalha com afinco, com foco, Deus, às vezes, dá uma colaborada também conosco! É preciso ser persistente e ter fé!

ANFITRIÃO:

Ao longo da leitura, percebe-se que uma investigação dessa magnitude exige muito mais do que conhecimento jurídico. Ela demanda planejamento, liderança, disciplina operacional e capacidade permanente de avaliar riscos. Como o senhor estruturou a equipe, definiu prioridades investigativas e administrou as incertezas inerentes a uma operação que envolvia criminosos extremamente perigosos e articulados?

CONVIDADO:

Aqui cabe ressaltar e valorizar o trabalho dos nossos colegas da Divisão de Repressões a Entorpecentes que eram lotados na sede da PF em Brasília, em especial ao meu amigo, Delegado Ronaldo Urbano! A investigação ter um crescimento célere foi necessária a criação de bases operacionais em determinados pontos do nosso território nacional, onde havia movimentação de membros da organização criminosa. Essas bases eram dedicadas exclusivamente para essa investigação e eram coordenadas pelo Doutor Urbano que centralizava, difundia e discutia com o responsável de cada base o melhor caminho a seguir. Posso dizer que tive privilégio de ter sido colega de turma do Doutor Urbano! O conhecimento e o desempenho profissional dele foram fundamentais pelo sucesso da Operação Alpha! Além disso, outro ponto fundamental foi a dedicação e disciplina de todos! Vamos separar alguns casos: os policiais que fizeram vigilância à noite, que seguiam pessoas durante a investigação sem serem notados; os policiais que seguiram as carretas que transportavam o fumo, que saíram de Santa Cruz do Sul, em dois ou três veículos e foram até Guaraí, no Tocantins, seguindo as carretas vários dias na estrada e conseguiram passar despercebidos porque eram profissionais de alto valor, de muito conhecimento! Aqueles policiais que ficaram também nos chamados “Pontos de Observação”, os “POs” entre o local que nos abrigamos e o sítio onde os traficantes estavam com a droga! Eram dois pontos de observação! Passavam dia e noite ali em turnos de, às vezes, oito horas para serem rendidos! Nós ficamos dez dias naquele pequeno sítio que tinha uma sala, quarto, cozinha e banheiro. E nós éramos 30 policiais! Tínhamos que dormir! Então, se dormia em rede, em carro e foi por aí! Tivemos os policiais que saiam desse sítio para fazer as compras em Guaraí para a nossa alimentação, que se misturaram aos habitantes daquela cidade - e eles que cuidavam da cozinha - foi muita coisa! O cuidado que se teve com a segurança no dia do atraque e da prisão! Tudo isso contribuiu enormemente para o sucesso da operação! Todos os policiais trabalharam muito, muito! E com dedicação e afinco!

ANFITRIÃO:

Um aspecto que chama bastante atenção é a dimensão logística da organização criminosa. Quais características daquela estrutura criminosa mais o impressionaram durante a investigação? Em que medida elas já demonstravam um elevado grau de profissionalização do narcotráfico internacional?

CONVIDADO:

Me chamaram a atenção o uso de documentos falsos para abertura de contas bancárias; de criação de empresas fantasmas; o fluxo financeiro; a atenção para detalhes como a escolha do tabaco onde a cocaína foi escondida; a escolha e compra da fazenda onde os aviões pudessem pousar e decolar e terem, também, acesso fácil a uma estrada de grande movimento; o trabalho que os traficantes fizeram dentro da fazenda para esconder a cocaína nas caixas de tabaco! Tudo isso mostrou o nível de profissionalização dos traficantes! Por outro lado, como eles já tinham feito aquela remessa de três toneladas de cocaína, em alguns momentos eles foram descuidados! Tem, até, uma passagem interessante, quando o traficante Vicentico, ao ser interrogado, reconheceu um policial que havia conversado com ele no Aeroporto de Palmas: ele bateu com a cabeça na mesa que estava à sua frente e disse: “em terra de burro, eu fui o Rei-burro, ou seja; eles, mesmo, viram que vacilaram naquele momento. E em outros momentos, também, não tomaram muito cuidado, mas, na parte da papelada, eles foram bem profissionais!

ANFITRIÃO:

Até aqui revisitamos o nascimento da investigação e compreendemos como inteligência, método e liderança foram determinantes para transformar suspeitas iniciais em uma das maiores operações antidrogas da história brasileira! No próximo bloco, conheceremos os bastidores da fase operacional e as lições que permanecem extremamente atuais para os profissionais da segurança pública.

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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