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Os Avanços e Boas Práticas no Sistema Prisional de Santa Catarina - Episódio 24
Episode 28 • Bonus Episode • 20th January 2023 • Hextramuros Podcast • Washington Clark dos Santos
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Shownotes

Neste episódio, o Secretário MURILO responde e esclarece como o sistema prisional do Maranhão progrediu de um cenário em que, entre 2010 e 2014, for a apontado como um dos mais críticos do país para, atualmente, ser modelo de controle, gestão, segurança e humanização da pena.


Transcripts

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros Podcast!

Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião. No episódio de hoje recebo e homenageio o policial penal LEANDRO ANTÔNIO SOARES LIMA - o LEANDRO LIMA, o qual, nas atuações como Diretor do Departamento de Administração Prisional e, posteriormente, Secretário de Estado de Justiça e Cidadania e Secretário de Estado da Administração Prisional de Santa Catarina, liderou importantes ações e iniciativas na administração prisional, resultando em práticas modelares para todo o Brasil.

ANFITRIÃO:

Caro Leandro; ao dar-lhe as boas-vindas aproveito o momento para agradecer a ti e a sua equipe pela sempre calorosa hospitalidade com que nos recebe e pela generosidade em compartilhar as boas práticas implantadas no sistema prisional de Santa Catarina! Fundamental para o início de nossa conversa peço, então, que se apresente e conte um pouco de sua jornada profissional.

CONVIDADO:

Meu caro Clark; muito obrigado! Eu agradeço a gentileza das suas palavras! Nós trabalhamos juntos, no plano nacional, articulando com o plano estadual, a política prisional do Brasil. Muito obrigado, pela gentileza também, por toda a generosidade de compartilhar todos os aprendizados! Meu nome é Leandro Antônio Soares Lima, sou policial penal desde 15 de setembro de 1988. Agora, sou um policial penal aposentado, com 34 anos e 2 meses de atividade. Eu também sou pedagogo; minha área é educação, com foco na educação de adultos, e entendo que essas questões todas, elas se entremearam muito na formação do profissional que eu sou. Eu entrei para o estado por meio de concurso público e lá eu, primeiro, fui policial penal, depois fui pedagogo. Eu me formei depois disso. Trabalhei na Penitenciária Agronômica durante muitos anos da minha vida, depois, no Hospital de Custódia. Depois disso, na Casa do Albergado de Florianópolis. Depois, voltei à Penitenciária de Florianópolis, onde fui diretor-geral, depois fui Diretor do Departamento de Administração Prisional do Estado de Santa Catarina, de 2011 até 2014, quando passei a acumular a função de secretário adjunto. Em 2015, passei a ser o Secretário Adjunto, até 2018, quando, no dia 15 de março, assumi a Secretaria de Justiça e Cidadania Santa Catarina, como o primeiro agente penitenciário, a época, a ocupar essa vaga. Depois disso, nós fomos convidados a permanecer no governo e um dos nossos projetos era a criação da SAP. E isso aconteceu em 2019...a criação da SAP, uma série de outras ações importantes, relacionadas a concurso público, a valorização do servidor, novo plano de cargos e salários. Eu entendo que a valorização e o empoderamento do operador, quem quer que seja ele; policial penal, técnico, algum especialista, todos os operadores do sistema prisional são a coluna principal que deve ser erguida primeiro, antes de todas as demais, para que a gente possa constituir o sistema prisional seguro e efetivo.

ANFITRIÃO:

Do início de sua vida profissional aos dias atuais, quais as maiores e mais significativas mudanças você registra no sistema prisional de Santa Catarina?

CONVIDADO:

Essa é uma pergunta bastante interessante! O início da minha carreira, lá em 1988, ainda sob o efeito da Constituição anterior vendo o país, uma série de mudanças acontecendo no país, nós percebemos uma invisibilidade do operador de gestão prisional, na época chamávamos agentes prisionais. No nosso estado tínhamos três unidades prisionais: Florianópolis, Chapecó e Curitibanos. Depois disso, com o tempo e com as mudanças que foram sendo criadas em cada estado, a gente pode perceber uma mudança naquilo que era a gestão de todo o sistema prisional. Então, as cadeias públicas que tinham muitos presos provisórios, que eram administradas pela polícia civil, passaram a ser administradas pelo sistema prisional. Então, o que eu percebo, do início da minha trajetória no sistema prisional, em 88, até agora, é que nós conquistamos espaços de visibilidade. Nós passamos a ser reconhecidos e, repito, essa é a estratégia mais importante a ser adotada para qualquer estado ou país que queira ter um bom sistema prisional: reconhecer nos seus operadores, aqueles que podem ser os transformadores do sistema prisional! Para o bem ou para o mal! Porque eles têm a potencialidade de produzir e reproduzir ações dentro do sistema. E isso aconteceu em Santa Catarina, para o bem! Nós tivemos a implementação de grandes políticas laborais, que foram de forma bastante aceita pelos seus operadores no estado inteiro, de atividade laboral, atividade educacional, mas, sem antes, investir em uma academia de formação dos próprios operadores. E isso é, sem dúvida, um dos fatos mais importantes: formar, acreditar nele e proporcionar meios para que ele possa de fato desenvolver a complexidade das suas ações. E a grande diferença é justamente isso: era mais simples ser agente prisional, lá nos anos 80 e é muito mais complexo ser policial penal em 2022. E muito mais complexo, com muito mais desafios à frente. Então, acredito que essa é a maior transformação que nós temos nesse período.

ANFITRIÃO:

Com a criação da Polícia Penal em Santa Catarina, houve alterações na estrutura e na autonomia da administração prisional? Explique por favor!

CONVIDADO:

Ainda, na mesma resposta, eu acredito que houve muita autonomia nesse sentido. E o nosso estado, quando eu digo que as ações aconteceram pari passo e, algumas, foram até adiantadas, porque nós criamos a Secretaria de Administração Prisional em 2019, com orçamento, com autonomia! Basicamente, uma secretaria técnica, com pouquíssimos cargos de fora, com indicação política ou comissionados e, de 2019 a 2022, nós tivemos um incremento orçamentário e uma autonomia plena para execução desse orçamento. Isso é muito importante: não apenas ter os recursos, mas poder decidir o que fazer com os recursos, sempre levando em consideração a atividade finalística! Então, a polícia penal, além do fato jurídico, da segurança jurídica, em Santa Catarina especialmente, nós tivemos a autonomia de gestão, a partir de um governo do estado que nos reconheceu no papel de operadores do sistema prisional e protagonistas dessa série.

ANFITRIÃO:

As mudanças operadas no sistema prisional de Santa Catarina, das quais as iniciativas para incremento do uso da mão-de-obra prisional são exemplos para o Brasil, refletem positivamente na sensação de melhoria de qualidade do ambiente de trabalho pelos profissionais e colaboradores que laboram nas unidades prisionais? De que forma captas tal percepção?

CONVIDADO:

Excelente, excelente pergunta! Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares! Além da atividade laboral em Santa Catarina, que chegou a níveis altíssimos, se aproximando dos 40% no final da gestão em 2022, e todos esses convênios são realizados entre o estado, empresas e prefeituras, ou seja: não é o estado que paga o salário do preso. São as empresas e prefeituras que tomam o serviço desses presos que os pagam! E esses presos devolvem ao estado 25% do que ganham. Então, a atividade laboral trouxe, também, um reforço na questão financeira do estado. E mais do que isso, de forma descentralizada. As unidades trabalham e os recursos são depositados...os recursos dos 25% da devolução do trabalho do preso voltam para esses Fundos Rotativos e atuam de forma regionalizada, ou seja: os fundos rotativos são de acordo com cada região do estado. Os recursos não vêm para a conta principal do estado. Eles são reinvestidos nas próprias unidades prisionais e, em dezembro último de 22, nós conseguimos operacionalizar junto à Assembleia Legislativa, por iniciativa do governo do estado, aprovação de um projeto que modernizou ainda mais a legislação dos Fundos Rotativos em Santa Catarina. Ou seja: aquele trabalho que é realizado nas unidades, o recurso volta para a própria unidade e pode ser investido nas melhorias das atividades, assim como nas inúmeras melhorias que já vinham sendo feitas, também, para melhorar as condições de trabalho dos nossos operadores. Ou seja, é uma atividade extremamente positiva! É um “ganha-ganha”. O estado ganha, o apenado ganha e a sociedade ganha! Porque a única perspectiva que nós temos, concreta, de ressocialização, é aquela em que o preso aprende a trabalhar, entende a importância disso para onde ele está, que ele passa a contribuir com o sustento da família enquanto ainda está preso, resgate a sua escolaridade e volte à convivência familiar, após o cumprimento da reprimenda penal, em condições de trabalho e com isso, com a educação resgatada, é uma das pouquíssimas chances que nós temos de ressocialização de fato. Então, melhora as condições de trabalho dos operadores e se constitui um plano muito importante de ressocialização, que é um plano que acaba sendo fundamental para a atuação integrada de uma política de segurança pública.

ANFITRIÃO:

Que adequações entendes como necessárias, ainda, a fazer na legislação acerca do Fundo Rotativo?

CONVIDADO:

Olha; a situação da criação dos fundos rotativos, eu vejo como sendo crucial para que a gente saia de um sistema prisional deficitário, para que a gente possa construir ao longo dos próximos anos – não é uma coisa muito rápida, índices de autossustentação para as unidades prisionais brasileiras. Digo isso com toda tranquilidade e com a certeza de quem trabalhou nisso nesses últimos anos, de que é possível que, em todo o país, nós possamos ter índices de autossustentação, desde que tenhamos regras claras de convênio para trabalho e, também, a criação dos fundos rotativos. Os fundos rotativos são fundos descentralizados de forma regional, que recebem o recurso gerado na própria região. Hoje, os Fundos Rotativos de Santa Catarina se abastecem de 25% do salário dos presos. Cada preso recebe um salário e devolve 25% do que ganha ao estado, a título de indenização. Esse recurso fica nas contas regionalizadas e, isso, é extremamente importante e os próprios fundos rotativos, tendo CNPJ’s próprios, acabam por empreender ações voltadas à solução de várias demandas da sociedade como: fabricação de artefatos de concreto, fabricação de uniformes escolares, indústria têxtil dentro dos presídios, fabricação de alambrado, tela, concertinas. Há uma série de itens, muito maiores do que esses que eu falo, que podem ser fabricados no sistema prisional. Então, a venda disso pelo fundo rotativo, além dos 25% do trabalho do preso, também recebe o lucro das operações, o que é plenamente possível e viável. Então, eu estou falando de sair do discurso utópico, de que no sistema não tem jeito. Sim! Tem jeito! Basta que nós tenhamos política prisional séria, implementada em todo o país. E as dificuldades que eu entendo de implementação dos fundos rotativos são relacionadas ao não entendimento da real capacidade dos fundos, lembrando que o Ministério da Justiça, em 2019, na visita do Ministro Sérgio Moro em Santa Catarina, emitiu uma nota técnica, orientando a atividade laboral a partir dos fundos rotativos para todo o Brasil. É uma nota técnica do DEPEN, ainda em 2019. Então, eu penso que nós precisamos de fato implementar isso, para gente sair da seara de que tal coisa não pode acontecer, tal avanço não pode acontecer porque não há recurso, quando a gente pode gerar recursos dentro das próprias unidades e gerar soluções para as demandas da nossa sociedade.

ANFITRIÃO:

Qual o maior fator para o adoecimento do policial penal e como a escala de serviço interfere na saúde deste profissional? Proporcionalmente ao número de servidores, há muitos casos de afastamentos em função de atestados de saúde?

CONVIDADO:

O tema do adoecimento no sistema prisional, por parte dos seus operadores, é de fato gravíssimo! Talvez, nós precisássemos ter uma política nacional voltada especificamente a essa que é uma das mais difíceis profissões no mundo. Nós temos um problema grave de, não apenas adoecimento; nós temos casos de suicídio, nós temos casos de atentado contra a própria vida, quando alguém se deixa levar pelo alcoolismo e pelas drogas. E sim, há uma condição muito grave que envolve o adoecimento do policial penal. A providência que nós tomamos em Santa Catarina foi a ampliação do nosso programa de atendimento ao servidor, o PAS. Ele passou a ser regionalizado e atende na base, tenta atender na base essas necessidades, mas, eu acredito, que isso ainda é pouco e nós devemos continuar avançando mais em programas de caráter preventivo e não apenas o atendimento que já é corretivo. E, dentre essas questões todas, eu entendo que a definição, o entendimento pleno do papel do policial penal e de todos os operadores do sistema prisional, eles sendo atendidos e trabalhados na forma de conhecimento, de articulação da Academia, das universidades com atividade prisional, é extremamente importante. Nós precisamos definir “Ciência Prisional” a partir da experiência dos nossos operadores, da robustez da experiência dos nossos operadores, com o mundo acadêmico e trazer pessoas que trabalham academicamente na solução e na ação preventiva de algumas demandas que levam ao adoecimento no sistema prisional e, também, juntar com a expertise, com o robusto conhecimento que os nossos operadores trazem. Eu acho que esse é o caminho para frente e, de fato, digo que esse é um dos mais graves problemas que nós temos para trabalhar no sistema prisional. E a demanda dos atestados médicos ela chega a ser menos importante do que a demanda por saúde e nos casos, inclusive, de suicídios que acontecem no sistema prisional.

ANFITRIÃO:

Acreditas que a implantação de mecanismos para automação de abertura e fechamento de celas e outras soluções que diminuam o contato físico entre o policial penal e o interno, além de contribuir para a segurança da unidade prisional, possam influenciar para o decréscimo de casos de adoecimento ocupacional?

CONVIDADO:

Nós temos que convergir dois temas extremamente importantes: o objetivo principal da nossa atuação institucional, que é manutenção da segurança, manter custodiados segregados e evitando fuga e todas as outras obrigações que são inerentes à custódia do Estado e, também, ao mínimo contato possível para evitar também o adoecimento prisional e outras questões que podem afetar a segurança. O que eu entendo é que, nesses anos que eu tenho trabalhado na gestão, eu não conheci nenhuma atividade de segurança mecânica que desse 100% de condições da gente apostar na automação, sem que houvesse algum fato relacionado ao esquecimento. Eu acho que a falta da prática, no dia a dia, no hábito de fechar as portas, ela é importante. Entretanto, é possível que a gente possa abrir e fechar essas portas, mesmo que manualmente, mas num segundo piso, utilizando o conceito de “construção aérea”, que é o que nós adotamos em Santa Catarina. Muitas unidades foram construídas, é verdade, mas, muitas precisam ser adequadas ainda, porque nós, ainda, não temos totalmente esse conceito de controle aéreo estabelecido. Eu acredito que o controle aéreo, mecânico, afasta suficientemente o operador do dia a dia, da atividade prisional, afasta o suficiente para que ele não adoeça, mas o mantém próximo o suficiente, para que a segurança também não seja deixada de lado. Então, eu não aposto, até agora, não me convenci de nenhuma automação mecânica, por mais testada que tenham sido algumas seja tão importante que possa assegurar que ela possa ser implementada em todas as atividades. Em compensação, o investimento na arquitetura prisional adequada me parece o caminho. Essa é a minha opinião, como operador e, também, como gestor.

ANFITRIÃO:

Como visualizas a possibilidade de implantação de telemedicina nas unidades prisionais?

CONVIDADO:

Eu acredito que nós temos uma experiência, oriunda nesse período de pandemia, em que muitos serviços foram transformados de presenciais para à distância, por meio de tecnologias de comunicação: as videoconferências, vídeo visitas, tele audiências...isso comprova de que isso pode ser feito. Havendo entendimento das autoridades médicas, das autoridades que respondem pela saúde pública, de que isso é possível ser feito, sob a avaliação de quem conhece o tema saúde, no sistema prisional, eu acredito que isso seria um grande avanço. Algumas questões relacionadas à saúde já vêm acontecendo ou aconteceram durante a pandemia, em vários estados da federação, e eu acredito que é um grande avanço para sociedade. Mais um daqueles ganha-ganha! Em que ganha a segurança, ganha o custodiado e, também, ganha a sociedade. Eu acho que muitas vezes nós temos situações extremamente desconfortáveis ou de insegurança para a comunidade quando os atendimentos básicos são realizados em postos de saúde. Então, acho que nós poderíamos fazer esse atendimento inicial, essa triagem inicial, se utilizando da telemedicina e, quando houvesse necessidade de qualquer ação na área da saúde que requeira um atendimento mais completo e, assim, saindo da saúde básica, acredito que nós possamos manter o atendimento presencial. Mas, muito do atendimento, hoje, me arrisco dizer que, muito mais de cinquenta por cento do atendimento hoje, poderia ser feito se utilizando dos recursos da telemedicina.

ANFITRIÃO:

Leandro; ganha amplitude a repercussão de recomendações para a utilização de câmeras corporais nos uniformes dos policiais penais. Como analisas tal implantação e, a seu ver, como utilizar tal equipamento em benefício da segurança e da correção de procedimentos no sistema penitenciário?

CONVIDADO:

Eu acredito que o uso de câmeras corporais, o que já se tem de notícia no país, que já tem notícia de funcionamento em algumas corporações ela sugere, muito claramente, que não basta que a gente atenda um avanço tecnológico que permite que as ações possam ser filmadas, mas, a gente precisa construir isso dentro de um processo de educação de todas as partes envolvidas, de capacitação para tanto. Nós tivemos a oportunidade de implementar as câmeras corporais aqui em Santa Catarina e nós não o fizemos. Não o fizemos, avaliando que nós poderíamos ter uma repercussão muito negativa do uso dessas câmeras, sem que as pessoas soubessem o que de fato estava acontecendo e, inclusive, com a possibilidade da diminuição de alguns procedimentos que levam à segurança prisional. Hoje, as unidades têm circuitos de CFTVs, circuitos fechados de televisão, que já garantem a segurança, a lisura, transparência. A atividade correcional, é implementada. Não adianta você ter câmera e não ter um setor de corregedoria atuando de maneira técnica e com entendimento acerca desse novo fato, ou seja: as câmeras poderão ser usadas no futuro, mas, primeiro, nós precisamos criar um amplo processo educacional, de capacitação, de entendimento do que isso significa, para todos os atores envolvidos. E, nas últimas duas oportunidades que nós tivemos que avaliar isso, eu, particularmente, fui contrário à implementação, justamente por não acreditar que somente a implementação das câmeras é o suficiente. Nós precisamos mais do que isso para que elas possam ocorrer.

ANFITRIÃO:

Qual a tua percepção acerca da privatização e cogestão de unidades prisionais? Achas possível e enxergas benefícios à segurança pública nesses modelos?

CONVIDADO:

Aí tem um outro tema extremamente complexo e, na minha percepção, tanto como operador e como gestor, é de que qualquer ação de privatização e cogestão, dos modos atuais não são adequados! Não favorecem à segurança. Favorecem a uma despesa extremamente elevada! Nós tivemos aqui, no estado de Santa Catarina, a revisão de contratos e a implementação de uma nova licitação para que os valores pudessem ser aceitáveis, mas, contudo, acredito que a discussão dentro de uma parceria público privada, nessa área, como nós fizemos aqui em Santa Catarina, até 2022, ela é possível. É possível e pode se adicionar ao processo de implementação da Polícia Penal. Agora, nós temos a criação das polícias penais e o dispositivo constitucional garante, claramente, que não pode haver delegação do Poder de Polícia. Então, a gente tem que construir isso muito sabiamente, como fazíamos aqui. E nós já tivemos aqui no estado cinco unidades de cogestão, nós diminuímos para três unidades, não fizemos uma sexta unidade no Oeste do estado, no modo de cogestão, justamente por conta dos valores muito pesados e onerando demais os cofres públicos. Por isso, eu não enxergo benefícios em cogestão. Acredito que nós precisamos discutir muito isso e não acredito em nenhuma possibilidade de privatização simples e clara alterando o modelo de cogestão. Dentro daquilo que se prevê numa PPP, é possível discutir. Fora disso, eu não acredito que seja bom nem adequado, com base nos exemplos de fatos já ocorridos em outras unidades da federação, no que se refere a operacionalização de ações e de pronta resposta, além dos elevados custos. Papel de Polícia é do Estado! Polícia Penal é Polícia e tem que ser do Estado.

ANFITRIÃO:

A segregação de lideranças e membros de facções criminosas contribui para a melhor gestão e controle das unidades prisionais? Por quê?

CONVIDADO:

Sim! Não há a menor dúvida nisso! A segregação de lideranças e membros de facções criminosas, contribui muito pela segurança e pela normalização da segurança, tanto das unidades prisionais quanto da segurança pública, a partir de uma lógica de integração. E por quê? Porque isso dificulta muito a comunicação no dia a dia. Então, nós, além de usar o Sistema Penitenciário Federal, construímos uma unidade prisional de segurança máxima em Santa Catarina, com esse objetivo, com o objetivo de poder trabalhar a interrupção da comunicação e a segregação dessas lideranças. Acho que esse é um tema extremamente importante que o governo federal precisa tratar. O DEPEN precisa continuar tratando esse tema e discutindo com os estados, para que a gente continue o enfrentamento às organizações criminosas do país, simplesmente atuando na execução penal. Essa é minha forma de ver.

ANFITRIÃO:

Que providências entendes como necessárias e eficazes para o combate ao uso irregular de celulares nas unidades prisionais?

CONVIDADO:

Esse, talvez, seja um dos temas que eu tenho trabalhado nele desde 2011, quando passei a ter acesso ao CONSEJ, depois, no CNPCP, no Conselho Nacional da República, no Conselho Nacional de Segurança Pública do país. É um tema que precisa ser discutido de forma concreta no país e a primeira providência que eu entendo ser necessária é que nós criemos uma lei federal que determine que a responsabilidade do corte, do bloqueio do sinal do celular nas unidades prisionais, seja das operadoras. Essa é uma matéria federal, e ela acabou sendo tratada aqui em Santa Catarina de forma estadual, mas, até o momento que ela foi declarada inconstitucional, as operadoras estavam discutindo essa possibilidade. Eu acredito que essa é uma ação que deveria ser implementada, executada e custeada pelas operadoras de telefonia celular do país, de uma maneira muito clara. Depois disso, é claro, implementação de scanners corporais em todas as unidades como fizemos aqui em Santa Catarina. É extremamente importante! O controle, as operações diárias que são realizadas nas unidades para evitar o seu acesso. O celular é extremamente danoso à segurança pública, não somente para as unidades prisionais, mas, também, fora delas. Por isso, eu entendo que isso deveria ser objeto de uma política nacional, a partir de uma lei federal! Existem matérias tramitando no Congresso Nacional há mais de dez anos, que não acabam tendo a importância necessária, acabam não saindo do papel e deveriam ser! As operadoras deveriam custear as despesas da implementação de um programa de bloqueio de sinal de celulares em todas as unidades prisionais do país.

ANFITRIÃO:

Em razão das dificuldades orçamentárias, para aumento do efetivo, que medidas compreendes como relevantes para aumentar a segurança de perímetros das unidades prisionais?

CONVIDADO:

Eu acredito que nós tenhamos que implementar tecnologias de comunicação, CFTVs, nós temos que avançar no reconhecimento facial, de toda forma que a tecnologia pode nos ajudar no perímetro, assim como deve haver investimento no efetivo. Nós precisamos ter grupos especializados de pronta resposta, de intervenção tática, que possam agir na segurança dos perímetros de forma rápida e isso é necessário, para isso é necessário, também, investimento no efetivo. Mas, o uso das tecnologias, com grupos treinados especialmente para essas atividades, pode colaborar muito no aumento da segurança do perímetro das unidades prisionais. Agora, nós precisamos entender que o custo da implementação de uma política prisional, ela é um investimento! É um investimento que volta em segurança pública, que é um dos maiores anseios da população do nosso país. Então, eu tenho que a gente, também, precisa que os governos estaduais e municipais entendam a importância do investimento de efetivos. Quando o repasse de recursos federais repassados, possa também ser implementado para custeio de despesas de manutenção dos efetivos. Nós precisamos entender que a manutenção do conselho de um Sistema integrado de Segurança Pública só vai se dar com o sistema prisional funcionando a plena carga, com efetivos resultados. É disso que eu realmente acredito!

ANFITRIÃO:

Leandro; caminhando para o final de nossa conversa, agradeço firmemente pela sua inestimável colaboração e deixo este espaço para suas considerações finais. Grande abraço!

CONVIDADO:

Dr. Washington Clark, eu o agradeço e quero dizer que me sinto lisonjeado com o seu convite para participar do Hextramuros Podcast. Fiquei extremamente envaidecido com as perguntas, com a importância dos temas. E é bom que todos saibam que o senhor é alguém que trabalhou conosco nessa articulação das políticas, como Diretor de Inteligência do DEPEN e foi um membro aglutinador de esforços em todo o país. Então, o nosso agradecimento, também, por continuar estudando o sistema prisional e se dedicando a essas questões. Minha consideração final é de que nós passemos a entender o sistema prisional como ente extremamente importante de um sistema integrado de segurança pública, nos estados e na federação. Os sistemas prisionais precisam ser reconhecidos pela importância e pela complexidade que se tornaram. Depois de 34 anos de atuação no sistema prisional, ele saiu de uma seara de simplicidade para uma seara de complexidade e a criação das polícias penais foi um fato extremamente importante do cenário brasileiro com grande nosso agradecimento ao Congresso Nacional, que votou isso de forma rápida e séria, e com uma grande quantidade de pessoas e de deputados votando a favor. A Polícia Penal é um órgão extremamente importante! Precisa ser reconhecida por isso. Nós precisamos que os policiais penais e todos os operadores do sistema prisional saiam de um cenário de invisibilidade para a visibilidade. Não somente para que a sociedade os veja de forma diferente, mas para que eles se vejam, para que nós todos nos vejamos de forma diferente na sociedade. Isso é extremamente importante! O investimento na formação e na capacitação é importante! Capacitação é extremamente importante! Nós temos academias que devem existir em todo o país, que devem proporcionar cursos básicos, de capacitação também, como cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado na área específica. Nós precisamos construir Ciência Prisional no nosso país e ela não vai se dar com as pessoas falando distantes umas das outras. A gente precisa juntar a importância e a robustez da experiência daqueles que trabalham nas unidades prisionais com o conhecimento acadêmico, com a matriz científica, que pode ser discutida entre as universidades e o sistema prisional para, daí, da junção dessas duas alas, desses dois efeitos, nós possamos construir Ciência Prisional no nosso país. Isso é extremamente importante! Isso tudo está muito mais próximo da gente do que a gente imagina. Então, não adianta a gente imaginar um grande tapete para esconder o sistema prisional debaixo dele, porque as consequências disso serão inevitáveis em qualquer lugar da sociedade. Essa é a minha fala, esse é o meu agradecimento. O meu agradecimento, o meu reconhecimento a todos os policiais penais do nosso país, a todos os técnicos, todas as pessoas que operam sistema prisional, porque são verdadeiros heróis que trabalham diariamente uma jornada de desafios extremamente rigorosos no nosso dia, disciplinadores no nosso dia a dia. E trabalham com uma parte da sociedade que a sociedade entende que tem que ser custodiada, que tem que ser reorganizada e eu acredito, de fato, que seja possível, com a implementação de políticas prisionais laborais e educacionais, nós possamos trabalhar a ressocialização de forma concreta no nosso país. O sistema prisional é possível, basta que nós tenhamos seriedade no olhar, na execução e na gestão! Forte abraço, muito obrigado e sigo à disposição.

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros Podcast! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião.

Na entrevista de hoje, conversei com LEANDRO LIMA, policial penal que, recentemente, encerrou a carreira, deixando um legado formidável, construído em sua jornada como operador e gestor do sistema prisional do estado de Santa Catarina.

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Será um prazer receber a sua colaboração!

Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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