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Knurd Report - The Knurd Project EPISODE 3, 30th May 2019
Knurd Report #55c
00:00:00 01:03:57

Knurd Report #55c

00:01:26 Aladdin
00:28:28 Discovery

Featuring music: Adriana Calcanhotto - Lá Lá Lá e Letrux - Ninguém Perguntou Por Você

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Em retrospecto, algumas horas mais tarde, Gabriela se daria conta de que a sensação do ar em seu rosto era estranha, artificial, um eco que não condizia com a época do ano nem com a localização de sua casa. Além do mais, apesar da certeza de que estava em pleno dia, tentando recordar aquele momento ela se dava conta de que poderia muito bem ser de noite, ou durante o crepúsculo, e pra falar a verdade ela nem conseguiria precisar ao certo se tinha de fato saído da casa... Era como se a certeza se esvaísse no momento em que se manifestava, e uma solidão imensa tomou conta de sua alma, uma sensação de desamparo e temor, e ela quis voltar.

Os sons dos carros passando e suas luzes ofuscando seu rosto, refletindo o sol ou a lua ou as luzes dos postes, ela não tinha certeza, pois o tempo passava acelerado em torno de si, como se estivesse presa em um daqueles vídeos de timelapse que Valéria adorava mostrar-lhe nas horas mais inoportunas, deixava-a mais confusa do que segura; O céu tingia-se de uma miríade de tons, dos mais claros aos mais escuros, e as luzes da cidade acendiam e apagavam enquanto o sol se revezava com a lua e as nuvens bailavam mudando de forma, dobrando-se e dissolvendo-se em si mesmas. Quando assistia a esses vídeos, Gabriela sempre pensava nas vidas que começavam e acabavam naqueles cenários, durante o que para o espectador não passavam de meros segundos, em que se podiam admirar com atenção belezas naturais banais que a limitada percepção sensorial humana deixava passar. E Gabriela naquele instante pensava no quão enganada e extremamente infectada estava sua percepção da realidade, agora que nem ao menos conseguia diferenciar o exterior do interior.

Ela pontuou cada palavra mental com uma nota de desdém e vergonha por mais uma vez considerar o impossível apenas improvável... engoliu seco, repentinamente mais calma, agora que tomara a decisão de voltar pra casa. Claramente procurar Valéria fisicamente em algum lugar seria uma viagem tão louca quanto cheirar Ketamina e sair para pagar contas. Ela lentamente virou-se e pôs-se a caminhar em direção a casa, percebendo com susto e alívio que não havia trancado a porta, o que seria perigoso naquele bairro, mas pelo menos não precisaria perder mais tempo procurando pelas chaves. Era engraçado que tivesse medo de ladrões físicos quando estava sendo roubada no plano espiritual, e assim sendo se conformava por ainda ter uma porta, e era nisso que pensava enquanto entrava e já não pisava no seu felpudo tapete de boas vindas produzido na forma do logo da Resistência de Star Wars. Enquanto sentia luto pela perda do item, se perguntava se por acaso ficaria sem a casa em si, se o teto sumiria e todas as paredes e se a própria terra debaixo de seus pés desapareceria; qual era o critério afinal? O imóvel era alugado, mas o dinheiro do aluguel não era totalmente adquirido por meios legais... isso entraria nas regras? Qual seria o código moral de um demônio Robin Hood?

Gabriela fechou a porta, que ainda estava ali, e se perguntava se alguma parede já teria sumido, ou então a privada, quando vários quadros desapareceram um por um da parede diante de si, trazendo a um aparente fim a terrível maldição. Eram os últimos objetos e tudo o que agora restavam eram algumas pequenas peças da mobília original de Gabriela, que costumava conter vários móveis, antes de terem sido descartados para dar lugar ao proibido.

Gabriela sentou-se no meio do chão e abraçou as próprias pernas, ali permanecendo num catártico estupor, sem forças para acreditar no problema, tampouco para refutá-lo. Talvez ali ela estivesse alcançando um nível espiritual muito almejado por diversos sábios e yogis: talvez ela fosse a personificação da resiliência, o bambu que dobrava ao vento, mas não quebrava,